Reforma do QG de Hitler levanta temores de “parque temático nazista”
O concreto armado era tão forte que algumas estruturas sobreviveram a tentativas anteriores de demolição. (Foto: GETTY IMAGES)

Reforma do quartel general de Hitler pode promover uma espécie de fascinação com a Alemanha nazista e criar “Disneylândia sinistra”.

O quartel general de Adolf Hitler, tinha todos os atributos de um local seguro para o ditador durante a Segunda Guerra Mundial.

Localizado em uma área remota e escondido numa densa floresta. Além de estar protegido por lagos e pântanos. Esse era o Wolfsschanze, que em português seria algo como “Toca do Lobo”.

Hitler passou 850 dias, entre os anos de 1941-1944, neste vasto complexo secreto no território que hoje pertence à Polônia.

Reforma do QG de Hitler levanta temores de “parque temático nazista”

Atualmente, o Wolfsschanze está passando por uma grande reformulação para atrair turistas. A iniciativa é do órgão público polonês que administra o local, o Srokowo Forest District.

Funcionários estão “fazendo todos os esforços” para manter “a devida seriedade e respeito pela verdade histórica” ​​no complexo em ruínas. Pelo menos é o que diz o porta-voz da instituição, Sebastian Trapik.

Mas críticos argumentam que “atrações” insensíveis, como reconstituições com pessoas usando uniformes nazistas, podem transformá-lo numa espécie de Disneylândia sinistra.

Wolfsschanze: a Toca do Lobo

Esse foi o QG de Hitler na Operação Barbarossa, invasão nazista da União Soviética em 22 de junho de 1941. Operação na qual mais de três milhões de soldados alemães atacaram o Estado comunista.

Hitler passou a maior parte da Segunda Guerra Mundial neste QG, de junho de 1941 a novembro de 1944.

Nele havia cerca de 200 instalações, incluindo duas pistas de pouso e uma estação de trem. Eram protegidas por campos minados e armas antiaéreas.

O QG foi palco de importantes tomadas de decisões para as campanhas nazistas. Tais como a aniquilação dos soviéticos e judeus da Europa. O tenebroso Holocausto.

O ditador fascista italiano, Benito Mussolini, além de outros aliados do Eixo, visitaram o ditador nazista neste QG.

Reforma do QG de Hitler levanta temores de “parque temático nazista”
Wolfsschanze, agosto de 1941: Hitler (centro) e Mussolini (segundo à esquerda) estudam mapas mostrando a frente russa. (Foto: GETTY IMAGES)

O atentado contra Hitler

Em 20 de julho de 1944, oficiais tentaram matar Hitler no Wolfsschanze. O plano de assassinato torna o lugar ainda mais fascinante para os visitantes de hoje.

Reforma do QG de Hitler levanta temores de “parque temático nazista”

Hitler sobreviveu à bomba e teve apenas ferimentos leves, principalmente graças a uma enorme mesa de conferência feita de carvalho.

A bomba matou quatro pessoas, três delas oficiais, e feriu mais de 20. Os conspiradores do exército alemão, liderados pelo coronel Claus Schenk Graf von Stauffenberg, foram rapidamente presos e executados.

Trapik diz que uma “prioridade” no local agora é reconstruir a cena do atentado. Isso inclui figuras simbólicas em tamanho natural que retratam os presentes na época.

Reforma do QG de Hitler levanta temores de “parque temático nazista”
Mussolini e Hitler inspecionam os destroços da sala de conferências depois do ataque a bomba. (Foto: GETTY IMAGES)

Em janeiro de 1945, conforme o Exército Vermelho soviético avançava, os nazistas detonaram enormes explosões para tentar demolir as dezenas de bunkers e outras instalações do lugar.

Durante décadas, na Polônia comunista, a floresta cresceu sobre as ruínas e o musgo se espalhou pelos gigantescos blocos de concreto.

Fonte de renda que pode ser prejudicial

O local é uma importante fonte de renda no distrito dos lagos de Masurian, área polonesa que depende do turismo.

Os gerentes da atração estão agora melhorando as instalações turísticas. No entanto, esses esforços podem ser prejudiciais se acabarem incentivando peregrinações de neonazistas.

Existem novos painéis informativos, uma nova área de estacionamento e um prédio de recepção. Para o futuro, há ainda planos de construir um hotel e um restaurante.

Hoje, existe um aplicativo gratuito que orienta os visitantes pelo lugar. Eles ainda podem assistir a um filme sobre a história do QG nazista. Além disso alguns equipamentos militares também estão em exibição.

Quase 300 mil pessoas visitam a atração a cada ano, a maioria poloneses e alemães. O ingresso custa 15 zloty, cerca de R$ 15.

Reencenações históricas são populares na Polônia, mas ter atores posando com uniformes nazistas seria muito controverso. Mais do que as “figuras simbólicas em tamanho natural” de nazistas prevista por Trapik.

Um importante historiador polonês da guerra, Pawel Machcewicz, disse que tal medida seria “insana e ultrajante”.

Ele disse que “as cicatrizes deixadas pela guerra devem ser preservadas e apresentadas como uma lição, uma advertência. Exposições devem explicar a história, contextualizar o lugar, mas não ofuscar completamente (a gravidade do que ocorreu)”.

Trapik diz que há planos para reconstituições históricas. Começando com a encenação da Operação Ostra Brama, quando o Exército polonês derrotou a Wehrmacht alemã em Vilnius, em 1944.

O triunfo polonês durou pouco, já que as forças soviéticas logo avançaram para o oeste, começando a impor um terror comunista.

Enormes bunkers cobertos por arbustos

Visitar o Wolfsschanze descortina um retrato assustador da máquina de guerra alemã.

Reforma do QG de Hitler levanta temores de “parque temático nazista”
Os Aliados só descobriram o QG depois que Hitler o abandonou. (Foto: GETTY IMAGES)

Os vastos bunkers foram construídos acima do solo com paredes de concreto com 8 metros de espessura. Tão sólidas que as SS não conseguiram demoli-las em 1945, apesar de usar toneladas de dinamite.

Algumas estão caídas de lado, outras mais ou menos intactas, embora com grandes rachaduras. Turistas podem caminhar entre as instalações, em condições talvez pouco cuidadosas com a saúde e a segurança para padrões britânicos.

Quadros informativos são escassos e não há muita explicação em inglês. Árvores e arbustos cresceram em alguns bunkers, e pedaços de ferro surgem nos caminhos da floresta em alguns lugares.

Da construção onde Hitler sobreviveu à tentativa de assassinato, apenas o piso de concreto permanece. É extraordinário e quase uma experiência surreal pisar onde este acontecimento tão importante ocorreu.

“Disneylândia sinistra”

O Wolfsschanze foi onde os nazistas tomaram decisões notórias sobre o Holocausto e o massacre de civis em Varsóvia. Portanto, a história ali deve ser apresentada com sensibilidade, em respeito às muitas vítimas, argumenta Machcewicz.

Ele alertou contra a possibilidade de “uma Disneylândia sinistra, que poderia promover uma espécie de fascinação com a Alemanha nazista e Hitler”.

Machcewicz descreve ainda o que seria uma tendência polonesa para encenações históricas “moralmente duvidosas”. Elas incluem algumas experiências recentes.

Em 2010 reencenaram a deportação de judeus pelos nazistas em 1943, do gueto de Bedzin para os campos da morte. Em 2013, casas de aldeões poloneses foram incendiadas por atores vestidos como nacionalistas ucranianos. Foi uma dramatização dos massacres de Volyn de 1943-1944, em que morreram cerca de 100.000 civis poloneses.

A apresentação de capítulos dolorosos da história na atualidade levanta questões desafiadoras de gosto e moralidade. Jovens visitantes estão mais distantes desses eventos sombrios, então a história precisa ser acessível para eles.

A Toca do Lobo é um lugar extraordinário, visto pelos poloneses como uma cicatriz na bela paisagem da Masúria. Mas os truques para entreter os turistas podem silenciar o sofrimento do qual este lugar foi cenário durante a guerra.

Adaptado com informações da BBC News
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