Lupa Social
As redes sociais conseguem aumentar ainda mais a lente dessa lupa. | Foto: Geralt / Pixabay

A sociedade funciona como uma lupa, no sentido de ampliar o que há de mais profundo em cada ser humano

Tarsis Brendo

Sabemos que todos os seres humanos já nascem debaixo do jugo do pecado: fundamento básico da teologia cristã, desenvolvido por Agostinho de Hipona em seu embate com o monge Pelágio. Esse fundamento nos faz compreender a origem dos nossos impulsos carnais e nossa natural inclinação ao pecado.

O pastor da Redeemer Church, Tim Keller, em seu livro A Igreja Centrada, argumenta que a sociedade funciona como uma lupa, no sentido de ampliar o que há de mais profundo em cada ser humano. Ou seja, a sociedade não corrompe os seres humanos, ela amplia o que há dentro de cada um.

Pensando nisso, devo dizer que concordo, e que ainda acrescentaria mais! Eu diria que as redes sociais conseguem aumentar ainda mais a lente dessa lupa.

Tenho visto nos últimos dias, embates épicos na internet, pessoas discutindo e insultando uns aos outros por conta de opiniões divergentes sobre a quarentena, cloroquina etc. O debate público ficou cada vez mais acessível depois do advento da internet, pois, agora, todo palpiteiro se encontra protegido por sua tela de computador, e enquanto isso sua natureza humana clama, sossegadamente, por combate. E a lupa amplia cada vez mais…

Não quero dizer com isso, que, sou contra o debate. Mas que não é muito saudável que parentes, amigos, e até mesmo desconhecidos troquem insultos por conta de diferentes pontos de vista. E é claro, que isso seja um recado para a nossa juventude cristã, que tem se tornado protagonista de discussões desnecessárias sobre arminianismo e calvinismo! Em alguns momentos, esses debates na internet têm se tornado um palco para elevação de ego, rebaixamento do outro e desconstruções desrespeitosas da teologia alheia. Em momentos como esse, me parece oportuno citar Otelo, célebre personagem de Shakespeare: “Sejam cristãos e parem com essa briga, quem se mexer para agradar sua raiva esquece a alma e ao mover-se morre”.

Por fim, acredito que nós, cristãos, devemos nos preocupar com nossas práticas devocionais (oração, comunhão, leitura da Escritura) antes de opinarmos, para que a “lupa social” demonstre nossa conduta cristã útil para edificação, e não para a desmoralização. Como escreveu Salomão: “O coração do sábio instrui a sua boca e acrescenta doutrina aos seus lábios” (Pv 16.23). Que sejamos sábios ao pensar, ao falar, e, sobretudo nos dias atuais, ao escrever.

Tarsis Brendo
Formado em Teologia (FUV), co-autor do livreto “A sabedoria como arte diária”. Apreciador da Literatura inglesa e russa. Membro da ADNV. Gosta de ler, ensinar e escrever.

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