Sem unanimidade e fortemente estigmatizada, ‘cura gay’ deve cair

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Avaliação é do presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marco Feliciano; projeto pode ser votado ainda esta semana.

Por Jussara Teixeira

Deputado Marco Feliciano - Cura GaySem obter unanimidade entre os próprios evangélicos e com a militância gay e parte da mídia empreendendo forte campanha de estigmatização, o Projeto de Decreto Legislativo 234/2011, apelidado de “cura gay”, de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO), pode não ser aprovado nas comissões por onde tramita ou mesmo no plenário na Câmara dos Deputados.

Durante a Marcha para Jesus, ocorrida neste sábado (29) em São Paulo, o deputado federal Marco Feliciano (PSC – SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos, onde a proposta foi aprovada, é partidário dessa opinião. Ele afirmou que “homossexualidade não é doença, é comportamento. E comportamento pode ser reorientado, e quem pode fazer isso é o psicólogo. O projeto já está morto. É uma crueldade”, afirmou em uma entrevista ao SBT.

Muitos evangélicos, porém, minimizam o papel do psicólogo no processo de tratamento: “Não é psicólogo quem vai curar, é Jesus, desde que a pessoa queira. Há ex-gays na igreja, mas não é comum, porque as pessoas não quererem mudar”, diz o diácono da Igreja Renascer em Cristo e engenheiro de computação Rogério Braga, que participou da Marcha para Jesus em São Paulo, falando ao G1.

Já o metalúrgico Emerson de Oliveira, de 25 anos, da Assembleia de Deus, enfatizou que a classificação da homossexualidade – ao lado do adultério, avareza ou mentira – como sendo um pecado, é da Biblia, e não dos evangélicos, nem de Marco Feliciano.

“Deus não fez o homem, a mulher e o bissexual, ou o homossexual. Se não é criação de Deus, não sei de quem é, então não aprovo. Você só vira homossexual se quiser. Sou ex-usuário de drogas, bebia muito e hoje não faço mais isso. Dependeu de mim, da minha força de vontade. ABíblia diz que adúlteros, alcoólatras e efeminados não entrarão no Reino dos Céus. Não é o Marco Feliciano que está condenando isso, é a Bíblia”, diz.

Também a advogada Karen Hamada, afirmou que a igreja deveria buscar o equilíbrio quanto ao assunto. Para ela, “nenhum homem vai conseguir curar outro homem”.

Ressaltou ainda que os evangélicos não consideram homossexualidade como doença. “Ser gay não é doença e para Deus todo mundo pode ser transformado. O que a gente quer é liberdade de crença, de culto, e que as pessoas não achem que todo evangélico é preconceituoso”, diz Karen, da Comunidade Evangélica Projeto Vida. E concluiu: “a gente não convence alguém a mudar, é Deus que convence e muda”.

Nas igrejas

A revista Veja São Paulo realizou uma reportagem percorrendo igrejas na Grande São Paulo para levantar como os evangélicos lidam com o tema.

A grande maioria das igrejas visitadas eram pentecostais e neopentecostais, e, segundo a reportagem – que não abordou o tema em profundidade -, em nenhum delas foi usado o termo “cura gay”- apesar do termo ser extremamente difundido pela mídia nacional.

Cura Gay

Sem programas específicos para orientação do público homossexual, os líderes religiosos dão ênfase no aconselhamento, oração e em um tratamento espiritual, sempre que alguém os procuram dizendo que não estão satisfeitos e possuem conflitos quanto à sua orientação sexual.

Esse foi o caso de Joide Miranda. Travesti por 20 anos e tendo uma vida que ele mesmo define como “glamourosa” em países da Europa, ele disse que não era plenamente feliz. “Eu tinha momentos felizes. Eu olhava para meus amigos mais velhos e via que uma hora a beleza ia acabar, eu ia ter que pagar alguém para estar do meu lado. Foi fácil para mim?  Não! Mas eu decidi deixar aquela vida por que o que eu mais desejava era a paz interior”, contou Miranda em uma entrevista ao Gospel Voice.

Agora pastor, Miranda disse ser favorável à proposta do 234/2011. “O trabalho psicológico é maravilhoso porque muitas vezes as pessoas não estão satisfeitas com a sua orientação. Então o interior do indivíduo está todo bagunçado. Chamo isso de feridas expostas na alma pelo pecado. Isso serve tanto para heterossexuais quanto para homossexuais.”, afirmou.

Mobilização

Apesar da proposta de João Campos reivindicar o direito dos homossexuais receberem tratamento psicológico quando insatisfeitos com sua própria sexualidade, o governo já mobiliza aliados para rejeitar a proposta no plenário da Câmara dos Deputados.

O texto foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e, se for deferido um pedido de votação em regime de urgência, vai direto a plenário, sem passar pelas comissões de Seguridade Social e Família e de Constituição, Justiça e Cidadania.

A ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário disse que “o Brasil segue as orientações da Organização Mundial da Saúde, que exclui a interpretação sobre orientação sexual com o viés de doença. Esperamos que o projeto chamado de ‘cura gay’ seja rejeitado pela Câmara”, declarou à Folha de S. Paulo.

A presidente Dilma Rousseff se reuniu com representantes da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), no Palácio do Planalto. Na ocasião, os ativistas pediram o apoio de Dilma para barrar a aprovação do projeto 234/2011 e também reivindicaram a implementação de medidas que criminalizam a homofobia.

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