Por que Jesus dobrou o lenço? – Uma explicação sem fantasias
Por que Jesus dobrou o lenço? – Uma explicação sem fantasias | Imagem Ilustrativa

O quadro vislumbrado por João e Pedro no sepulcro naquela manhã de domingo tenciona colocar-nos diante de uma sublime verdade

Tiago Rosas

“A seguir Simão Pedro, que vinha atrás dele, chegou, entrou no sepulcro e viu as faixas de linho, bem como o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus. Ele estava dobrado à parte, separado das faixas de linho” (João 20.6,7, NVI)

Assim como eu, você já deve ter ouvido muitos pregadores fazendo uma interpretação alegórica (para não dizer fantasiosa) desse texto. Partindo de uma suposta prática oriental antiga, na qual o senhor da casa quando concluía sua refeição deixava o lenço com que limpava a boca embolorado sobre a mesa ou, quando ainda voltaria à mesa para concluir a refeição, deixava o lenço dobrado em sinal para o servo não tocar na mesa, dizem que Jesus deixou o lenço dobrado num sinal de que ele ainda não tinha terminado sua obra e que ele voltaria outra vez.

Bem, em primeiro lugar eu gostaria que os pregadores pentecostais, bem como os ouvintes em geral, aprendessem mais a pedir pelas fontes históricas e teológicas de suas ideias e teorias. Por exemplo: de onde tiraram essa história do lenço embolorado ou dobrado sobre a mesa? Que historiador ou especialista em cultura oriental antiga registra isso? E não adianta citar Flávio Josefo em tudo, sem poder dar a devida comprovação. Infelizmente virou moda dizer que Flávio Josefo disse isso e aquilo… Coitado de Josefo, sempre levando a culpa em tudo!

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Em segundo lugar, é preciso questionar: o evangelista João atribuiu uma interpretação espiritualizada ao lenço dobrado? A resposta é não! Algum apóstolo fez uma leitura espiritualizada do lenço dobrado? A resposta novamente é não!

Não nos parece, então, muito fantasioso ficar atribuindo sentidos ao texto que nem os autores originais atribuíram? Sei que certas interpretações espetaculares causam euforia nos ouvintes, mas devemos prezar por uma interpretação correta, respaldada na própria Escritura, conforme seu contexto e intenção do autor.

Em terceiro lugar, não parece esquisito que alguém compare o suposto lenço usado para refeições com o lenço usado para cobrir o rosto de Jesus no túmulo? Jesus não foi ao túmulo para fazer uma refeição! Isso por si só já deveria livrar-nos de interpretações descabidas, ainda que fabulosas. Como dizia o exegeta William Hendricksen, os fatos revelados nas Escrituras já são maravilhosos por si só sem ornamentos exegéticos, e, eu acrescentaria, sem adornos alegóricos!

O texto de João 20 não versa sobre a vinda de Cristo para a Igreja, mas sobre a autenticidade da ressurreição corpórea de nosso Senhor Jesus. Logo, a intenção do autor é afirmar a experiência da ressurreição, não do arrebatamento da Igreja (aqui vai a primeira dica para quem pensa que o lenço dobrado significa que Jesus voltará. Sim, ele voltará, mas o propósito do lenço dobrado nunca foi dizer isso). João está escrevendo para falar de sua própria convicção da ressurreição de Cristo – ele é o discípulo que “viu [os lenços] e creu [que Jesus havia ressuscitado]” (v. 8) – e da convicção a que ele deseja levar seus leitores, como ele mesmo diz: “para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (v. 31). Assim, todo o quadro vislumbrado por João e Pedro no sepulcro naquela manhã de domingo tenciona colocar-nos diante desta sublime verdade: Jesus ressuscitou! O corpo não havia sido roubado, como pensara Maria Madalena (v. 2).

É importante o detalhe das faixas de linho e do lenço que Jesus deixara dobrado? Sim, é importante. Mas não por um significado alegórico, e sim para servir de comprovação para os discípulos que viriam ao sepulcro de que o Senhor havia ressuscitado.

– William MacDonald comenta: “O detalhe do lenço foi posto para mostrar que a saída do Senhor havia sido ordeira e sem pressa. Se alguém tivesse roubado o corpo, não teria dobrado o pano cuidadosamente” [1].

– O renomado evangelista pentecostal norte-americano Jimmy Swaggart também corrobora: “nenhuma dessas ações [de organização por parte de Jesus] se refere à pressa, que tivesse acompanhado o traslado ou o roubo de um corpo, mas sim algo feito com propósito e precisão; tudo isto refletia a ‘Ressurreição'” [2].

– Como destaca Matthew Henry, se se tratasse de um roubo, era mais provável que levassem os lençóis de linho que envolviam o corpo de Jesus do que o próprio corpo; ou que, levando o corpo, os ladrões não teriam tempo de deixar os lençóis e lenço em ordem [3].

O comentário do teólogo pentecostal Myer Pearlman é conclusivo: “João, portanto, chegou à conclusão de que Jesus milagrosamente passara pelas mortalhas, deixando-as intactas e vazias, caídas na forma em que tinham sido cuidadosamente embrulhadas ao redor do corpo de Jesus, sem a mínima perturbação ou desordem. Entendeu, portanto, que Jesus já assumira seu corpo glorificado, não sujeito a leis terrestres, e que Jesus ressuscitara para nunca mais morrer” [4].

Cristo vive. Amém.

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[1] William MacDonald, Comentário Bíblico Popular – Novo Testamento, Mundo Cristão, p. 322
[2] Jimmy Swaggart, Bíblia de Estudo do Expositor, SBB, comentário em João 20.7
[3] Mathew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento, Mateus a João, CPAD, p. 1066
[4] Myer Pearlman, João: o evangelho do Filho de Deus, CPAD, p. 213

 

Tiago RosasTiago Rosas
Bacharel em teologia, evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de quatro livros.

 

 


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