Pr. César Roza: “O perfil do obreiro na atualidade”

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Pastor Cesar Roza - Entrevista: Perfil do líder cristão
O pastor Cesar Roza é bacharel em teologia pelo IBAD e pós-graduado em docência do ensino superior pelo IESB

“Falar do perfil do obreiro hoje, não é tarefa fácil, pois muitos conceitos estão baseados em administração de empresa, liderança de sucesso e os conceitos de uma sociedade pós-moderna, mas é imprescindível que o obreiro seja vocacionado”.

Por Paulo Pontes / Seara News / Entrevista

Natural de Minas Gerais, o pastor César Roza mora em Brasília no Distrito Federal. É Bacharel em Teologia pelo IBAD e Pós-graduado em Docência do Ensino Superior pelo IESB. Atualmente é vice-presidente da Assembleia de Deus em Planaltina/DF, líder do Departamento de Missões, professor de Teologia e conferencista há mais de 15 anos. Casado com a Psicóloga Maíra de Melo, e pai de Rebeka e Davi que considera dois milagres e promessas de Deus. Forma uma boa dupla com a esposa, realizando Conferências, Seminários e Aconselhamento para Casais, Famílias e Líderes.

Conversamos a respeito do tema “Liderança Cristã”, a partir do texto de 2 Cr 29.11 que diz: “Agora, filhos meus, não sejais negligentes; pois o Senhor vos tem escolhido para estardes diante dele para o servirdes, e para serdes seus ministros e queimadores de incenso”. E consideramos como fundo histórico o fato de que os levitas escolhidos por Deus para servir no templo não estavam cumprindo seus deveres por conta das ações de Acaz (2 Cr 28.24), a despeito disso, eles foram novamente chamados ao serviço por Ezequias, que os motivou com a lembrança de que foram escolhidos pelo SENHOR para ministrar.

Embora os obreiros de hoje não convivem num governo como o de Acaz, enfrentam diversas situações, além das pressões das responsabilidades do ministério que podem torna-los inativos e ineficazes.

Seara News – Qual o perfil bíblico para o obreiro?

César Roza – Falar do perfil do obreiro hoje, não é tarefa fácil, pois muitos dos conceitos estão baseados em administração de empresa, liderança de sucesso e os conceitos de uma sociedade pós-moderna. Tendo isto como base, urge resgatarmos o verdadeiro perfil do obreiro do presente século segundo a palavra de Deus. Em primeiro lugar é imprescindível que o obreiro seja vocacionado. Assim sendo, necessita priorizar pelo caráter e não somente pelo carisma. É indispensável que tenha um preparo bíblico teológico e outras áreas que agreguem valores e ferramentas no benfazejo da obra, mas também uma vida de oração, devoção, humildade e estudo da palavra de Deus. Paulo chega a exortar em sua carta pastoral que o obreiro precisa apresentar a Deus aprovado, que maneja bem a palavra da verdade e que não se envergonhe de nada.

Quais os desafios para os obreiros hoje?

Sabemos muito bem que vivemos em dias difíceis, segundo o que nos diz o apóstolo Paulo em sua epístola Timóteo. São dias trabalhosos, onde até mesmo os crentes não sofreriam mais o efeito da sã doutrina e acumulariam para si obreiros segundo a sua própria concupiscência. Uma das características da nossa sociedade pós-moderna é um “mutantismo”, ou seja; as coisas mudam da noite para o dia. Baseado nisso, o obreiro hodierno precisa oferecer uma resposta contundente para uma geração que não têm absolutos: assuntos como a eutanásia, aborto, homofobia, células troncos e outras, tanto doutrinariamente, quanto filosoficamente, para que as pessoas possam entender que o tempo muda, mas a palavra de Deus continua a mesma e os ditames de Deus para nós é o mesmo em todas as épocas. No livro de 1 Crônicas 12:31-32, diz que da tribo de Issacar eram homens conhecedores da ciência e do tempo para saber o que Israel deveria fazer em momentos de crise. Precisamos de obreiro que tenham discernimento de sua época compreendendo as sutilezas as filosofias e o sistema satânico.

Dentre todas as necessidades de um obreiro, qual pode ser considerada como a maior?

Pr. César Roza é casado com a Psicóloga Maíra de Melo

O obreiro atual deve ter uma formação holística, ou seja, em todos os âmbitos da sua vida. John Wesley chegou a dizer que o pastor precisa estar com a Bíblia na mão e jornal na outra mão, dizendo da necessidade de estar antenado com seu tempo. Em nosso tempo presente uma das maiores necessidades do obreiro, além de ser uma pessoa que entenda o seu tempo deverá ser uma pessoa que tenha comunhão com Deus.  Infelizmente é triste quando vemos que a maioria dos obreiros atuais tem tempo para suas agendas, tempo para o seu lazer, para a sua família, para estudar e viajar, mas infelizmente não encontra tempo para falar com Deus; não tem olhos marejados de derramar lágrimas diante de Deus. Esta tem sido uma das maiores deficiências do nosso tempo! Moisés, mesmo liderando uma multidão de pessoas em pleno deserto ficou 40 dias com Deus no monte. Líderes que não buscam em Deus a solução para os seus liderados passa a viver apenas na técnica e na prática ministerial. Se quisermos fazer a diferença numa geração pós-moderna, precisamos primar pela comunhão com o Deus da obra e não somente pela a obra de Deus.

Como um obreiro pode ter convicção de que realmente foi chamado por Deus?

A chamada é algo pessoal e vai fazer toda a diferença em nosso ministério, tanto é que o escritor aos Hebreus diz que ninguém toma para si esta honra, senão aquele a quem o Senhor nosso Deus chamar. Baseado nisto, preme entender que o chamado de Deus para cada um é diferente, mas sempre haverá uma marca ou um sinal que o levará a perceber que ele não é fruto do acaso ou de desejos humanos, mas sim do coração de Deus para um tempo, para um povo e com uma missão. Se olharmos para a vida de Moisés perceberemos a maneira contundente pela qual Deus o vocaciona para libertar um povo e levar esse povo a uma terra que mana leite e mel, chamado marcado por revelações de e manifestação do poder de Deus. Na vida do profeta Elias, vemos um homem que o momento era de tamanho corrupção, mas mesmo assim Deus o vocaciona para pregar uma palavra que não era nada agradável nem ao povo e nem ao rei daquela época. Jeremias também nos fornece a informação de que o chamado de Deus para dele foi desde o ventre da sua mãe, assim como Ezequiel também experimenta a vocação de Deus quando já estava com 20 anos de idade. A vocação de Deus na nossa vida deve ser algo incontestável, pois em nossos momentos de crise, o que nos sustenta no ministério não é o tamanho da igreja que lideramos, ou os diplomas acumulados, mas, sim, sabermos que fomos chamados por Deus para fazer uma grande obra. Uma das maiores tragédias dos nossos dias é contemplar obreiros que estão no púlpito, mas não tem legalidade diante de Deus; nunca viu uma sarça ardendo, nunca escutou a voz de Deus, mas insistem em pastorear. Como disse o Reverendo Hernandes Dias Lopes, vocação é como algemas invisíveis, não vemos, mas elas nos vinculam ao Deus todo poderoso.

Negligência, imperícia e imprudência fazem parte da realidade do exercício ministerial de muitos obreiros. O que leva um obreiro a essas características negativas?

Quando leio essa pergunta me recordo quando dava aula de trânsito, onde os três maiores fatores de acidentes são justamente a negligência, imprudência e imperícia. A negligência pode se dizer que é a falta de atenção e desleixo. Dentro deste conceito, o obreiro passa a viver de maneira inconsequente com o seu chamado, tal qual Sansão que quebrou os votos de seu nazireado. A imprudência é quando assume o risco e vive de maneira a não pensar nos riscos e consequências; aqui o exemplo clássico é o sacerdote Eli que mesmo sabendo a vida dúbia de seus filhos, deixava que os mesmos estivessem a frente da liturgia. Por último, vemos a imperícia que é e falta de habilidade ou experiência: o filho de Salomão, Roboão é um terrível exemplo de um rei que através da sua imperícia causou a divisão do reino. Tais características fazem parte da vida de muitos obreiros, pois perderam a sensibilidade à voz Divina, bem como a dependência do Espírito Santo. Quando negligenciamos a oração recorremos aos métodos administrativos e muitas vezes pragmáticos para solucionar o problema do rebanho. Paulo, em sua missiva pastoral a Timóteo diz que existem vasos para glória de Deus e vasos para a desonra, mas se alguém se purificar será usado como vaso de honra na presença do Senhor.

Sendo o ministério é tão glorioso, por que existem tantos obreiros desmotivados?

Infelizmente as estatísticas no que diz respeito ao ministério tem sido estarrecedora. É lastimável quando vemos que muitos pastores estão entrando em depressão, experimentado a “síndrome de Bournet” e muitos até mesmo cometendo suicídio. Estas coisas têm acontecido porque estão confundindo “ativismo religioso” com a “obra de Deus”, espiritualidade com fanatismo, bem como líderes que se “casaram” com a igreja e a esposa e família se tornaram “amantes”. Aliada a todos esses fatores encontramos pessoas sempre agradando seus líderes e não a Deus. Paulo nos advertiu quanto a isso ao falar sobre agradar a Deus e não aos homens e ao enumerar as características de um ministro. Outro fator a considerar é a santa obsessão ministerial, onde busca o sucesso a qualquer preço, onde o eu, é destruído na busca pela conquista. Nesta busca pela fama corremos o risco de chegar no topo sem alma; quando isto acontece perdemos a sensibilidade, as nossas lágrimas e o contato com Deus. A máxima dita por Jesus vale também para nós: “O que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”.

Há uma visão equivocada do episcopado hoje?

Infelizmente assim como no tempo de Jesus, muitos O seguiam com motivações erradas. Olhavam para Jesus como um possível libertador de toda aquela opressão Romana, outros estavam acompanhando em busca de um cargo no seu possível reinado ou quem sabe pelo status que lhes eram oferecidos. Em nossos dias não é diferente, muitas pessoas estão enveredando-se pelo caminho eclesiástico não pela vocação, mas sim atraído pelas cifras e glamour da presidência de um campo ou pelo aparato religioso proporcionado. O conceito de pastor hoje já não é mais aquele que serve e sim aquele que é recebido com todos os lauréis.  O tempo moderno mudou o significado do vocábulo “pastor”, que vem do grego “poimém”, e traz a ideia de apascentar, aquele que alimenta, para um “homem de sucesso”, caracterizando-se pelas agendas, pelo número de seguidores nas redes sociais e pelas multidões que os ouvem. Que Deus nos ajude a não nos curvarmos às tendências e modismos mundanos, lembrando sempre que quando o diabo não conseguir manchar nossas vestes com o pecado, com certeza nos cegará com as luzes dos holofotes.

Pastor Cesar Roza fala sobre o perfil da líder cristão
Pr. César Roza é vice-presidente da Assembleia de Deus em Planaltina/DF

Um obreiro que se tornou inativo no ministério, seja por decisão pessoal ou circunstâncias alheias à sua vontade, deseja retornar e reassumir as suas responsabilidades. O que ele deve fazer?

Seguindo a tendência do mercado, onde o ser humano é mensurado pela sua produtividade e pelo sistema predatório, dificilmente o obreiro que sofre algum revês ou deseja dar um tempo encontrará as portas abertas.  Por isso, ter convicção da chamada é preponderante na vida de um obreiro, pois para o obreiro que Deus chama sempre haverá um lugar e um trabalho na casa do Pai. Aquele obreiro que realmente tem anseio em fazer a obra de Deus sempre terá lugar e oportunidade. Sempre terá o seu espaço, só não pode esquecer que nosso trabalho embora exista a parcela humana, é de reverberação eterna, então muitas vezes não espere reconhecimento humano, e sim o reconhecimento divino que nos dará a coroa de justiça do próprio Senhor Jesus.

Conforme este contexto, que mensagem deixa para obreiros e líderes cristãos?

Em nossa lida ministerial, encontramos vários tipos de obreiros; uns que vão nos atrapalhar a servir ao reino de Deus e outros que nos trairão; veremos muitas injustiças e passaremos por crises profundas e quem sabe até mesmo por traições e decepções ministeriais. Mas, a mensagem que eu deixo é olhar para o autor e consumador da nossa fé, sabendo que não foi o homem que nos chamou e sim, Deus, para a realização de uma grande obra. Por mais que as coisas estejam difíceis não se esqueça que é na dificuldade da vida que Deus se revela em nosso ministério e na obra que estamos fazendo. Nunca desanime, vamos aprender com Elias a superar os momentos adversos. Em um dado momento do seu ministério Elias quis a morte, sabe por quê? Porque deixou de ouvir a voz de Deus, para ouvir a voz de uma mulher que o ameaçou. Infelizmente quando começamos a deixar de ouvir Deus para ouvir o que as pessoas estão dizendo, começamos a desanimar e a temer, por isso jamais abra mão daquilo que Deus falou com você mesmo que as pessoas não acreditem ou digam o contrário. Se Deus falou, siga viagem porque mais poderoso é aquele que está com você, do que o que está no mundo. Outro ponto relevante de Elias, é porque estava nivelando sua vida com a dos outros. Isto se evidenciou quando ele disse que não era melhor do que os seus pais. O fato de compararmos a nossa vida com a dos outros é um caminho, o famoso dito “a grama do vizinho é mais verde”. Que venhamos nivelar nossa vida e ministério a partir de Jesus Cristo e grandes ícones do Novo Testamento e não pelos ídolos esculpidos pela pós-modernidade que muitas vezes o seu maior interesse não são os Louros da Glória as cifras dos reais e dos dólares.

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Entrevista com exclusividade para a Revista Seara News
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1 COMENTÁRIO

  1. Muito boa matéria sobre o chamado do obreiro.. concordo plenamente que a chamada do obreiro é essencial para suportar as pedras do caminho..
    Deus abençoe Pr. Cesar Roza

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