Onde Está Deus?
Onde Está Deus? – Pergunta retórica, desengavetada imediatamente após uma tragédia | Foto: Reprodução

“No fundo, sabemos que nos queixamos da pancada que levamos do balanço de parque que nós mesmos empurramos para a frente e agora sofremos seu implacável retorno”.

Onde Está Deus?

Essa pergunta retórica é desengavetada imediatamente após uma tragédia. E pensem: vivemos sob o pipocar de tragédias diárias. Sejam naturais, sociais, civilizacionais, em menor ou maior escala, elas surgem em todas as partes, sem aviso prévio de chegada.

Em meio ao caos e a dor, Deus é acusado e julgado em todas as instâncias como culpado no mesmo minuto. Como se não bastasse, é comum a tragédia desencadear outra penca de perguntas clichês como: Por que Deus não acaba com a pobreza? Por que Deus não resolve o problema da violência no mundo? Da poluição? Das doenças incuráveis? Por que Ele não acaba com o sofrimento de uma vez?

Se Deus não parece estar visível e presente no sofrimento, não é por indiferença e apatia. Mas porque aqueles que deveriam representá-lo e manifestá-lo no mundo tenham sido um tanto quanto incompetentes na Grande Comissão de aliviar os fardos dos outros. Preferindo gastar o tempo em programações descartáveis e desprovidas de significado quanto ao que realmente importa. Desse modo, não sobra espaço para incluir na agenda, preocupações como a antiga tarefa de “cultivar e proteger o jardim de Deus” (Gn 2.15).

É um fato que a grande esperança da fé cristã está no retorno de Cristo, o detalhe importante, é que essa esperança deve nos mover ao trabalho por sabermos que o consolo em breve virá e não nos estagnar em um estado de espera improdutivo. Nossos temas de congresso dizem muito sobre como vemos a esperança da Segunda Vinda. Arrisco-me na afirmação de que há uma grande parcela de irmãos que viram nessa esperança apenas uma oportunista vontade de escapar e se ver livre dos problemas desse mundo que não conseguem resolver.

Qual foi o último evento em que participamos ou promovemos para refletir sobre o que nós enquanto Embaixadores do Reino de Deus no mundo podemos fazer para impedir o recrutamento em massa de crianças periféricas pelo crime organizados? Qual foi o último congresso que participamos em que lágrimas foram derramadas pela criação de Deus que respira por aparelhos devido a selvagem e devastadora exploração? Por que tais temas não nos interessam? 

Não parecemos muito preocupados com os males que tem assolado o “Jardim de Deus”. Confundimos o texto “O Mundo jaz no maligno”, nós o lemos da seguinte forma: “O Mundo é do maligno”. Desse modo, nossa vontade de ir para o céu tem se tornado apenas uma válvula de escape, o que até então era uma bela esperança, agora caminha para ser uma motivação estragada.

Demonizamos a Terra e tudo que nela existe. Nos esquecemos que “Do Senhor é a Terra e sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Sl 24). Perdeu-se o desejo de combater o mal com o bem (Rm 12.21) e de lutar por um mundo melhor, afinal, vamos escapar do caos em breve, então, por que gastar tempo em engajamento e envolvimento? Por que se importar com o meio ambiente, com as tragédias e os desastres sociais?

Se Deus parece calado devemos nos perguntar sobre o paradeiro de seus porta-vozes. Se Ele parece indiferente devemos nos perguntar sobre o que tem feito seus representantes chorar. Se Ele parece ausente sabemos da causa. Talvez precisemos de menos eventos para exibir nossa vontade de escapar do mundo (a generalização é proposital) e mais demonstrações diárias de altruísmo e amor ao próximo. E por que não fazermos uma revisão em nossa agenda a fim de vermos o que temos e o que podemos fazer para tornar os valores do Reino de Deus mais presentes no mundo?

O sofrimento no mundo é um problema que só não incomoda aqueles cujas veias da sensibilidade foram obstruídas. Não é nada justo atribuir a Deus culpa, pelos males da má distribuição de renda, corrupção, poluição e reações da natureza a nossa exploração selvagem. No fundo, sabemos que nos queixamos da pancada que levamos do balanço de parque que nós mesmos empurramos para a frente e agora sofremos seu implacável retorno.

Podemos oferecer a mais brilhante das respostas teológicas e filosóficas sobre a pergunta do título, porém conversas inteligentes de nada adiantam diante da dor humana, precisamos de materializar o amor de Deus, torná-lo palpável através de nossa generosidade, acolhimento, altruísmo, brandura e amabilidade. Afinal, Deus age na história através de seus representantes, não porque Ele precisa, mas porque escolheu assim.

Mesmo assim, a pergunta “onde está Deus?” continua serpenteando pelos corredores da nossa dor. Não pretendo dar uma brilhante resposta, mas posso garantir que Deus está onde sempre esteve. Ao lado do enfraquecido, chorando com o que chora. Sofrendo com o que sofre. Ao lado do desfalecido, do esgotado, do desiludido. Do oprimido, do desfavorecido, do desprivilegiado. Do injustiçado, do humilhado e principalmente daquele que se humilha.

Onde está Deus? No mesmo lugar de sempre. A pergunta que devemos fazer é onde está o Corpo? Aqueles que são as mãos, os pés, os olhos, o coração e a mente de Deus no mundo. Nas desgraças, o Deus dos desgraçados sempre estará presente, aquecendo nossa fé interior e se manifestando através de seus representantes.

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