Maturidade como Sinônimo de Espiritualidade

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Maturidade como Sinônimo de Espiritualidade
Ambiente favorável para o crescimento (Foto: Reprodução)

Espiritualidade é convicção interior, uma aliança encravada nas nossas entranhas de modo que nem a pior das provações consegue quebrá-la.

Por Matheus Henrique Silva Cruz

A atual ideia de espiritualidade está cada vez mais reduzida a uma experiência sensorial. Deus se tornou algo que precisa ser experienciado pelos cinco sentidos. Me refiro ao crescente estímulo pela busca incessante por uma materialização da presença de Deus. O membro dos movimentos evangélicos contemporâneos é bombardeado com cultos e ministrações focadas em experiências emocionais extremas. É preciso chorar sempre, gritar, sentir vontade de correr e ter as emoções abaladas ao máximo a cada reunião. Esse é o termômetro soberano da espiritualidade: o sentir!

A lógica deste modelo é que os que sentem estão íntimos de Deus, já os que não sentem; a conclusão inescapável que se chega, é que precisam identificar quais os pecados estão os impedindo de sentir Deus. Afinal Daniel orava três vezes por dia, José tinha sonhos, Paulo foi ao terceiro céu, Moisés viu uma sarça pegando fogo, entre outros que viveram o sobrenatural de alguma forma, se isso não ocorre conosco certamente é porque estamos falhando.

A marca do louvor contemporâneo é o refrão monossilábico. As letras são bem vazias de conteúdo. Mesmo assim são esticadas a uma duração interminável através do refrão, que é repetido incontáveis vezes. Em certas ocasiões o culto todo se passa em apenas uma canção. Os sentimentos que podem fluir daquele momento são explorados ao máximo. O culto racional de Rm 12.1 é substituído pelo culto sensorial. O que importa é sentir algo, qualquer coisa. É o que chamo de ditadura das experiências emocionais.

A aposta na cor escura das paredes e na baixa iluminação torna o ambiente favorável para que o participante extravase seus sentimentos sem se preocupar se está sendo observado. O efeito é anestésico e entorpecente, são sensações viciantes. Quem não quer estar anestesiado da sofrida realidade o tempo todo? Porém, como todo vício, encontro após encontro, o membro irá a procura de doses cada vez maiores, como se sempre houvesse uma dimensão de intensidade ainda não explorada e ela estivesse disponível a qualquer hora. E a cada experiência inferior a anterior, ele se frustrará.

Este modelo de espiritualidade eleva o padrão para um nível impossível de se manter. O primeiro amor deixa de ser uma fase e passa a ser tratado como uma condição eterna, que deve ser preservada para não acabar. A fase inicial da nossa conversão é tratada como a que devemos permanecer (estacionar) para sempre. Esse entendimento acaba condicionando as pessoas a viverem na imaturidade para sempre.

A fase inicial da conversão, o chamado primeiro amor, é um momento em que necessitamos de sentir a todo momento, de chorar sempre e de todo um tratamento especial da parte da Graça para permanecermos de pé. É a infância espiritual. Uma fase em que nos emocionamos fácil, topamos qualquer desafio e queremos fazer um monte de loucuras em nome da fé, afinal estamos deslumbrados, tudo é novo.

Quando crianças, não conseguimos tomar decisões sérias sozinhas, nem assumir grandes responsabilidades, caminhar longas distâncias e muito menos desempenhar funções que só os adultos podem. Querer viver eternamente de “Primeiro Amor” é evitar o amadurecimento. É estacionar na fé. Devemos emergir da infância para a maturidade! Afinal, o maná só descia do céu porque o povo estava no deserto. Nunca foi da vontade de Deus alimentar o povo para sempre com o sobrenatural, mas sim que pudessem entrar na terra prometida e colher a própria comida que plantaram. Assim é a vida cristã.

A fase de receber Maná do céu precisa dar lugar a outra, a uma que tenhamos condição de plantar, produzir, fazer coisas maduras e desfrutar da presença de Deus na sutileza do cotidiano, na rotina; como colher os frutos da própria plantação. Nem mesmo José tinha sonhos todos os dias, Daniel não tinha visões todos os dias, Paulo não tinha um botão que apertava e se teletransportava para o terceiro céu sempre que queria. Essas experiências nunca foram a rotina desses personagens, mas sim eventos pontuais, para um propósito especifico de Deus.

Em Hebreus 11.1, lemos que “a fé é a ‘certeza’ do que esperamos e a ‘prova’ das coisas que não vemos”. Essa definição é tão clara com água! Espiritualidade é convicção interior, uma aliança encravada nas nossas entranhas de modo que nem a pior das provações consegue quebrá-la. Não depende do termômetro das sensações. “É a prova das coisas que não vemos”, mesmo não vendo, não sentindo, não experienciando nada de sobrenatural, simplesmente cremos, sabemos que somos dEle e que Ele habita em nós. Esse é o modelo de fé e espiritualidade simples e pé no chão que devemos desenvolver.

O modelo de fé proposto por esses novos movimentos (ou deveria dizer “movements”?) com nomes americanizados pode gerar, no fim das contas, até mesmo descrença e desilusão com a própria experiência de fé. O ardor inicial vai passar mais cedo ou mais tarde, é da vontade de Deus que ele passe. É impossível manter a intensidade emocional todos os dias e por muito tempo. Os membros desses espaços foram ensinados que sentir menos, ou deixar de sentir, é se desviar, é esfriar na fé. Então começa o efeito dominó. Começam a se sentir abandonados por Deus. Vão invejar quem ainda tem as experiências. Vão agonizar em depressão espiritual por tentarem chorar e não conseguirem mais.

Ensinados que que a infância espiritual deve ser para sempre, vão sucumbir. Ensinados que precisam de mimos divinos diários para se sentirem filhos de Deus, vão se angustiar. E daí para baixo em queda livre, os prejuízos são irreparáveis. Por não sentirem mais as mesmas emoções do início, vão pensar terem perdido a fé. Vão procurar onde foi que pecaram e não vão encontrar. Por fim, beirando a paranoia, com possíveis ataques de ansiedade, síndrome do pânico e sentimentos de que não fizeram o suficiente, vão sentir que nunca, foram de fato filhos amados de Deus.

Com isso, forma-se uma multidão de cristãos que foram desumanizados pelo discurso que os obriga a buscar uma espiritualidade só anjos conseguem ter. Que coloca Deus Pai em uma altura inatingível. Que torna a Graça um mérito de quem paga preço. Um ex-membro desse ambiente não consegue mais reconhecer Deus fora da bolha da experiência emocional.

A Fé passa a não ser mais uma certeza do que se espera, cria-se uma idolatria do sentir. Agora é preciso sentir para crer. É a síndrome de Tomé em uma versão 2.0. Viciados no leite materno do primeiro amor, querem maná para sempre, não conseguirão caminhar com as próprias pernas, plantar e colher o próprio alimento, viver uma realidade madura ou enfrentar a crueza dos obstáculos. Não vão suportar a rotina, o ordinário, nem serão capazes de experienciar Deus no cotidiano.

Estes, tiveram seu processo de crescimento retardado, ou até mesmo interrompido. Nasceram; mas não cresceram, e, se ainda não morreram, a fé destes respira por aparelhos. Correndo o risco de morrerem com a mamadeira vazia agarrada nos braços, como bebês subnutridos que foram privados do direito de viver e amadurecer.

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