Liberdade de expressão não vale sem fraternidade #CHARLIEHEBDO

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Liberdade de expressão não vale sem fraternidade #CHARLIEHEBDO, por Erika Gentille
Liberdade de expressão não vale sem fraternidade #CHARLIEHEBDO

por Erika Gentille

(Este texto foi publicado em minha coluna semanal no Jornal Correio Paulista sob o título Je suis Charlie + Je suis Ahmed, com colaboração de minha amiga de Paris em um mix de nossa visão sobre o caso Charlie Hebdo)

Paula Prado é brasileira, estudante doutorado de marketing em Paris. Apaixonada pela cidade, seus sabores e liberdade, se viu em uma situação atípica nos últimos dias: o ato terrorista contra a redação do Charlie Hebdo, que tirou a vida de 17 pessoas, entre eles nossos colegas de profissão.

A convidei para contribuir comigo para não deixar essa história passar em branco.

Segue seu relato:

“Domingo, 11 de janeiro de 2015, foi um dia histórico para a França, a Marcha Republicana reuniu mais de 4 milhões de pessoas não apenas em Paris, mas também em pequenas e grandes cidades como Lyon, Bordeaux, para homenagear as vítimas dos atentados e para exaltar a liberdade e a democracia. Foi um momento marcado por muita emoção, uma marcha ora silenciosa, ora caracterizada por frases como “Viva a França”, “Eu Sou Charlie” e a Marselhesa, o hino nacional francês”.

Ela decidiu comparecer à Marcha para representar a solidariedade do Brasil com o país – que acolhe muitos estrangeiros. Sua caminhada de quase 3km começou na Place de la Republique e terminou na Nation, ao lado de pessoas portando cartazes com mensagens de paz e tolerância, jovens de diferentes nacionalidades e religiões, inclusive a islâmica, carregando rosas brancas com um semblante de tristeza. Aliás,

“o policial que fora brutalmente assassinado na porta do edifício do jornal Charlie Hebdo era um francês de origem argelina e de confissão muçulmana”, por isso começaram a levantar outro slogan: “Je suis Ahmed”, em sua homenagem”.

O metrô foi gratuito durante todo este dia na cidade, então no trajeto a bordo dele, uma senhora de uns 70 anos ofereceu um broche à Paula: “dizia “Je Suis Charlie” e era para que pregasse no casaco. Achei seu gesto gentil e acolhedor”.

Mas uma das cenas mais impactantes para ela estava para acontecer: dezenas de jovens hasteando bandeiras de diferentes países (Líbano, México, Argélia, Estados Unidos, Portugal, e outros) em cima do monumento à Liberdade na Place de la République:

“havia um grande X pichado sobre seus lábios, demonstrando um dos valores e principais orgulhos dos franceses censurado”.

Então, em parceria conosco, ela entrevistou alguns jovens franceses para entender o sentimento.

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A VOZ DA FRANÇA

Gaëtan Guyet (24 anos, estudante de Ciências Políticas)

“O sentimento que me trouxe aqui hoje é muito forte, pois não é com frequência que vemos pessoas e bandeiras de diferentes países se reunirem por uma causa comum. Estamos todos sob o golpe de uma emoção que é amplamente compartilhada. A liberdade de expressão é a possibilidade de dizer tudo, mas sem procurar impor aos outros. Acredito na liberdade de expressão e na igualdade de expressão, assim como na fraternidade de expressão, no sentido de que podemos dizer tudo, mas sem ferir os outros”.

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Gaëtan Guyet (24 anos, estudante de Ciências Políticas)

Aglae Milliard (21 anos, estudante de Jornalismo)

“O sentimento de participar da Marcha é de muito orgulho ao ver todo o meu país reunido aqui hoje, mas também um sentimento de tristeza, porque choramos a morte de inocentes. A esperança é o que nos faz manter os braços erguidos, para que possamos vencer o terrorismo. Liberdade de expressão para mim, estudante de jornalismo é tudo na minha vida, pois é o lugar sobre o qual meu trabalho e a democracia repousam. É um valor essencial que não pode ser ameaçado”.

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Aglae Milliard (21 anos, estudante de Jornalismo)

Jérémy Lapouge (27 anos, Bancário)


“Até o dia de hoje, o sentimento predominante era o de tristeza diante de tantos horrores, de vidas suprimidas sem razão e da liberdade escarnecida. Mas hoje, o sentimento que predomina é o de orgulho. Hoje a França se levantou, e de pé, ela grita a sua rejeição ao terrorismo! É um dia histórico, provavelmente uma das maiores reuniões de pessoas que nosso país já conheceu – podemos dizer: somos um povo. Para mim, liberdade de expressão é ter o direito de dizer o que pensamos sem nenhum entrave. O direito de não estar de acordo, o direito de pensar diferentemente. É um dos pilares da democracia, um privilégio ao qual muitos não tem a chance de ter, um direito que muitos almejam, e que infelizmente alguns estão tentando nos confiscar, mas, sobretudo, é um direito que nós devemos incessantemente defender e proteger”.

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*não temos foto de Jérémy Lapouge, então segue foto geral, (rs).

“17 mortos e 66 milhões de feridos”, uma das frases mais repetidas pela mídia francesa, e que sem dúvidas, resume o sentimento. Paula conta que “a lição que ficou foi a resiliência do povo francês”.

Uma senhora que participou do Movimento realizado em maio de 68 na França, a tocou com seus sinceros dizeres “não tenha medo, é pior se você tiver medo”. E a estudante conta que de fato não está com medo por estar realizando um sonhado projeto profissional. Ela acredita na esperança e na paz, na união do povo francês independente de sua origem para que ninguém mais perca nenhum membro de sua família vítima de terrorismo.

Veja algumas fotos amadoras: (clique na foto para ampliá-la)

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MINHA OPINIÃO

Este é o ponto! E agora vai a minha opinião, como Erika.

O ponto é: o termo liberdade de expressão precisa ser substituído por algo mais moderno: fraternidade de expressão.

Jornalismo não é libertinagem. Entendo que é factual e isento na medida do possível ou opinativo e irônico. São duas das possíveis vertentes que dialogam, se confundem ou complementam. Isenção total é mito: da decisão do que é pauta ou importante ao que não é, da orientação da mídia e “dos mídias”, e fatores pessoais de moral, cultura e ética (só pra exemplificar).

O caso Charlie, no entanto, abre uma discussão para o limite do humor. Pois humor em si não é jornalismo, mas pode ser uma ferramenta poderosa de comunicação para ele. Mas Charlie também nunca foi só humor por humor. Sabe-se que é proibido representar em imagem o deus muçulmano. Então ao fazer a charge, ainda que sem críticas, já estariam ferindo o culto alheio.

“E o que isso representa de construtivo no jornalismo como transformador social ou contador de histórias de seu tempo?”

Lembram-se do “pastor que chutou a santa aqui?!” e causou alvoroço?! É algo comparável, só que mais radical, talvez mais “cult”, mas nem por isso mais justificável ao ser trabalhado e frequente. Mas talvez ainda mais produtor de conflitos.

A promoção do diálogo poderia ter resolvido: mas o recado de uns é a bomba. E o preconceito de outros é impresso. Não estou aqui para defender o ato terrorista! Mas nem santificar os jornalistas! Queria que ninguém tivesse se machucado por causa de suas idéias! E nem eliminado a tiros alguém que não tem a mesma convicção. Parecem muito extremos. Então o equilíbrio é: nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Je suis Charlie + Je suis Ahmed, somados. Um momento de reflexão coletiva.

De novo: diálogo, respeito mútuo e menos fundamentalismo. Mas dialogar não parece uma habilidade dos humanos deste século sangrento. E aí?! Devem parar de publicar ou publicar melhor? Reflita. Devem parar de matar? Claro! Todos mulçumanos são terroristas? Não. Todos são bonzinhos? Todos jornalistas são inteligentes e isentos? Há alguém lucrando com isso? Há um senso inadequado de superioridade de opinião só por ser jornalista? Há preconceito no humor? Humor sobrevive sem estereotipar? Não vamos poder mais falar sobre nada ou ninguém só porque desagrada? Complexo. Pense.

O mundo não tem nem paz, é muita ousadia que pensem que terá muito senso de humor! Mas o jornalista não tem direito de ofender pra vender – nem jornal, nem suas ideias. O ser humano em qualquer profissão também não.

“Liberdade de expressão só funciona com fraternidade. A vida também. E na França, dizem que LIBERDADE, FRATERNIDADE E IGUALDADE são um. Que sejam”.

 

Erika GentilleErika Gentille
Jornalista, formada pelo Mackenzie e MKT pela FGV. Estudou na China e seu estilo de vida é o amor. Criou o conceito “ixigirl” e acha melhor não explicar!
Blog: www.ixigirl.com.br

3 COMENTÁRIOS

  1. Muito boa a matéria com detalhes que mostram o sentimento do povo francês. A melhor expressão de valorização da liberdade da vida humana em qualquspot.comer área/situação é aquela velha expressão:” a minha liberdade vai até onde inicia a liberdade do outro”, no mais é provocação sobre a liberdade alheia. Infelizmente a tendência, mesmo nos meios mais cultos, é piorar, mas vale lembrar as palavras do apóstolo Paulo:
    E não vos amoldeis ao sistema deste mundo, mas sede transformados pela renovação das vossas mentes, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Como servir por meio dos dons. (romanos 12.2) Bíblia King James Atualizada.

  2. Muito bom este texto, uma linguagem objetiva clara, que propõe uma reflexão acerca da “Liberdade de Expressão”. Aqui fala da indignação do povo francês, mas precisamos refletir nossa vida, nosso mundinho particular, pois os grandes conflitos tem inicio nos pequenos conflitos iniciado em situações que achamos pequenas, que não consideramos. Precisamos rever nossos preconceitos por menores que sejam, afim de evitar como tantos ai que estão de lados opostos, mas de alguma forma sendo também preconceituosos e incitando violência.

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