Igrejas pedem muito e templos oferecem pouco!

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Igrejas e Templos

Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor (Sl 122.1)

Por Silvio Costa

Não quero ser mal interpretado neste artigo. A razão desta exposição é levantar uma questão intrigante que tem incomodado muitos irmãos e por isso mais uma vez recorrerei à fonte energética de meus artigos – a Palavra de Deus (2 Tm 3.16-17). Esclareço que as pontuações não generalizam todas as instituições religiosas, até porque nem todas com suas administrações procedem ao teor desta abordagem. É importante ressaltar que muitos cristãos estão se desligando de suas congregações (inclusive crentes ligados a elas há décadas) por falta de sensibilidade pastoral, transparência e coerência religiosa quanto a arrecadações, despesas e investimentos em âmbito local.

Lamento que formas de gestão eclesiástica decrépita e insensível tenham navegado por oceanos de falta de percepção pastoral e planejamento administrativo. Lamuriamos por direções ancoradas em atrasos injustificáveis e nada transparentes gerando com isso enfrentamentos com membros locais. Vivemos em um tempo em que quando os filiados percebem que o comunitário não tem mais o óbvio sentido de bem comum e que a falada unidade da igreja é só mais um discurso conveniente a uma mascarada oligarquia bispal – um pavio de murmurações é aceso no meio da congregação e algo como um barril de insatisfações explode lançando crente pra tudo quanto é lado nas igrejas da adjacência; caem naquelas que oferecem melhores condições de congregar.

Muitos líderes e pastores carecem refletir sobre a vida da igreja enquanto comunidade local sob os prismas bíblico, histórico e contextual. Menciono as fundamentações bíblica e história porque conhecê-las é ter diretrizes seguras sobre o que foi o que é e o que pretende a igreja enquanto agência do Reino de Deus (Mt 16.18; At 5:11; 11:26; 1 Co 11:18; 14:19, 28,35; Ef 1:22; 3:10, 21; 5:23-25 27,32; Cl 1:18, 24; 2 Pe 2.9-10). O lado prático e contemporâneo precisa considerar os aspectos: pessoal, social e espiritual.

– Pessoal porque a igreja é formada por pessoas e negligenciar suas necessidades com base na Palavra é uma omissão de realidades eclesiológicas (At 6.1-4; Gl 6.10). 

– Social porque desconsiderar o perfil do tipo de gente (cultural e financeiramente) que congrega na igreja é um erro estratégico e posicional (Tg 2.9).

– Espiritual porque a igreja precisa fornecer um ambiente próprio ao desenvolvimento de espiritualidade (e não me refiro só à liturgia), um local agradável e prazeroso contribuirá para a enlevação transcendente da congregação (2 Cr 7.15-16; Ec 5.1; 1 Co 14.26).

Nesse novo tempo pelo qual atravessa a igreja evangélica brasileira não dá mais pra aceitar cobranças por dízimos e ofertas sem ao menos existir prestação de contas e algum retorno para o bem comum da congregação. Há pouco tempo atrás as necessidades temporais da obra resumiam-se a pagamentos de despesas como aluguéis, salários, encargos sociais, energia elétrica, água, telefone, material de limpeza e higiene – mas a nova e a renovada consciência cristã consideram essas “saídas” pouco significantes frente ao tanto que as instituições religiosas pedem e arrecadam. É verdade que o problema agravado em que membros embalam manobras de evasão de algumas igrejas tem mais a ver com dificuldades de gestão, má liderança e administração do que com a conceituação e aplicação eclesiológica de seu funcionamento e manutenção. Por este motivo reitero que os irmãos não querem deixar de contribuir com a igreja – o que desejam é que haja uma retribuição da instituição em melhores estruturas e condições de culto e serviço cristão.

Atualmente a assistência fraterna e social, obra missionária, caravanas, cantinas, construção de templos e tantas outras necessidades estão fora do objetivo-foco dos dízimos e ofertas de muitas igrejas – é tudo por fora por conta dos sobrecarregados contribuintes. Não sai da tesouraria dinheiro nenhum a não ser para as despesas enxutas da igreja e para as benesses pastorais. A verdade é que o evangélico no Brasil (com as exceções) sofre pela alta carga tributária imposta pelo governo e também por um jugo contribuitório determinado por algumas instituições religiosas de confissão evangélica; isso para vergonha nossa. Em muitos arraiais ministeriais se existe correspondência cristã na prática do segundo mandamento ela não acontece em regra geral pela instituição que se proclama igreja, mas pelos irmãos com suas ofertas avulsas. A justificativa é que a instituição já tem seus custos elevados e não pode ajudar – não tem como oferecer auxílio de alimento, abrigo, agasalho ou qualquer suporte material (Tg 2.14-17; 1.27). O discurso é bonito, mas não convence.

Existem igrejas abastadas financeiramente que submetem seus membros a uma miséria congregacional. Do ponto de vista estrutural alguns templos de melhor dotação orçamentária não têm sequer bebedouros adequados, os banheiros são ruins, o som é sofrível, o ambiente é abafado, a iluminação é precária, os assentos (bancos de madeira) são desconfortáveis, os ventiladores atrapalham o culto e falar em ar condicionado central é proibido. Tais igrejas oferecem a seus membros um serviço religioso inadequado e decadente se considerarmos o que estas instituições obtêm com a captação de tanto dinheiro advindo das contribuições.

Do ponto de vista experiencial essas igrejas indiferentes a qualidade de vida de seus mantenedores não valoriza aos que tanto se doam pela causa da instituição. Começa com o serviço de portaria e recepção que deixa a desejar, pois falta simpatia e até educação. A disposição dos bancos de assento é tão apertada que não se consegue passar sem esbarrar e sufocar a quem já está acomodado. Não oferecem sala ou culto infantil para que as crianças possam assimilar o Evangelho de forma adequada e dirigida e permitindo que os pais possam desfrutar de mais concentração para prestarem o culto racional. Os anúncios são desorganizados, ocorrem várias adições no momento da condução dos avisos semanais. A apresentação dos visitantes é tão desajustada que eles (os visitantes) acabam sentindo-se constrangidos ao invés de presença valorizada no ambiente. Os horários de término das reuniões são variáveis, prejudicam quem depende de ônibus ou tem que trabalhar muito cedo além de enfadar a assistência e afastá-la da igreja por falta de pontualidade. Em suma falta cortesia, compreensão, aplicação pelo bem coletivo além de cuidado e zelo com o patrimônio de Deus – as pessoas.

O que dizem os líderes desses templos desumanos e desatualizados de adequações estruturais e de convivência a seus frequentadores? A afirmativa que tentam encaixar é a de fundamentação bíblica para justificar o modo paupérrimo e desorganizado da casa de Deus que é administrada por eles. Alegam que Deus é Espírito e que não habita em templos bonitos e organizados feitos pelas mãos de homens (omitem propositalmente os templos inadequados e bagunçados), e desta forma o que prevalece na composição do argumento ensaiado é a espiritualidade do culto e não a estrutura física e a organização a favor da convergência de pessoas que prestarão o culto.

Que bom se todos soubessem que o tabernáculo construído no deserto com ofertas voluntárias dos israelitas (Leia essas passagens deslumbrantes no livro de Êxodo do capítulo 28 a 35 pelo menos) era bem organizado, com medidas razoáveis, com mobiliário adequado, com utensílios requintados e com ministros vestidos a caráter (tudo sob a orientação detalhada do Senhor Jeová). Quem teve o prazer de contemplar o tabernáculo se encantava pelas cores, harmonização e significados ambientais. Ajudaria também se conhecêssemos sobre toda a história e composição dos melhores materiais aplicados na construção do templo de Salomão (2 Crônicas do capítulo 2 ao 7); na disposição daquele sacro ambiente, nos adornos esculturais que enalteciam a presença de Deus – tudo isso para deleite reverente e adoração conseqüente do povo de Deus – era uma honra estar dentro da suntuosidade daquele templo, o sentimento de filiação ao Rei do Universo seria instantânea.

A leitura bíblica literal do tabernáculo e do templo de Salomão é totalmente oposta à desses líderes que são hábeis gestores financeiros e exímios redutores de custos operacionais (essas competências não são más – o problema é quando o saldo desaparece com despesas convenientes a uma burguesia clerical). O tabernáculo e o Templo expressavam aos adoradores que o ambiente do culto comunicava a riqueza da pessoa de Deus, a ordem e a perfeição de Seu reino eterno – o ambiente precisa retratar Deus. Sentir-se bem na igreja denota completude do ser, envolve espiritualidade em instância primária, satisfação e conexão em plano espacial e prazer em caráter experiencial (Sl 84. 10) e essa é a possibilidade, contribuição e doação que a igreja onde congregamos precisa nos oferecer!

Você pode adorar a Deus num templo módico coberto com folhas de amianto sem ventilação adequada e com suor escorrendo pelo corpo se o contexto financeiro te impuser essa realidade – mas se não for esse o caso, peça uma melhoria à direção, os irmãos merecem. A igreja local precisa ofertar mais que reuniões regulares em templos apertados e sufocantes; oferecer mais que sermões exortativos em aparelhagem de som sucateada; necessita corresponder à nossa dignidade de servos de Deus, a nosso contexto social e econômico e à nossa boa fé. A instituição precisa, sobretudo reverter às finanças que compartilhamos por amar a Deus em benefícios à coletividade assídua do templo. Chega de arrancar lã, tirar leite e comer a carne das ingênuas ovelhas sem lhes oferecer ao menos um aprisco descente e pastagens verdejantes à nossa experiência dentro do templo no momento de cultuarmos ao Senhor (Jo 10. 1-5).

Silvio Santo da Costa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo e esclarecedor artigo, com embasamento bíblico e fundamentos da área de atuação do autor. Uma fonte de água límpida e necessária para os departamento de mordomia das igrejas e congregações. Parabéns!

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