Igreja local mais terapêutica e menos adoecedora

Sugestões para tornar nossas igrejas locais mais terapêuticas e menos adoecedoras.

Por Roney Cozzer

É claro que minha experiência pessoal com o movimento evangélico brasileiro é limitada e não se coloca como instrumento aferidor da condição da Igreja, mas depois de tantos anos, de encontros e reencontros com o Evangelho e de diálogo com muitos autores, pude perceber diversos desafios e limitações que nos envolvem e que vem tornando difícil a permanência em denominações evangélicas.

Reconheço, contudo, a necessidade de o cristão manter-se vinculado à uma comunidade de fé, e pensando nisto, alisto abaixo algumas sugestões que, assim creio, se aplicadas de forma prática em nossas igrejas, certamente produzirão resultados muito satisfatórios e contribuirão para dar a nossas igrejas um caráter mais terapêutico e menos adoecedor.

Considere, assim, a lista a seguir, observando que a colocação de cada sugestão não se deu por grau de importância de cada uma delas.

1. Menos policiamento moral sobre as pessoas

Convenhamos que a pressão psicológica a que as pessoas são submetidas em igrejas evangélicas é praticamente intolerável. Sejamos honestos: ser membro de uma igreja evangélica por vezes significa ser vigiado moralmente o tempo todo. Você precisa pesar constantemente tudo o que vai dizer, como vai se vestir, que foto vai postar, com quem vai tomar um café e falar com uma pessoa do sexo oposto pode ser o caminho para o apedrejamento… 

Precisamos lembrar que comportamento que apenas se dá para atender a determinadas exigências religiosas pode conduzir ao mero formalismo e não necessariamente ser o reflexo de um coração genuinamente transformado pelo evangelho. Não por acaso, os ambientes mais conservadores abrigam os pecados mais podres… Pensemos nisso!

2. Criação de grupos de apoio a casais em processo de divórcio e a divorciados

Sim! Isto mesmo que você acabou de ler. Admito que muitos casamentos só são salvos por um milagre, mas como nem sempre milagres são realizados pelo Senhor, precisamos ao menos nos abrir a ajudar aqueles que passam por esse processo, procurando minimizar os danos. Você não costuma ouvir e ler isto com frequência, certo? É que os evangélicos ainda insistem em se fechar aos seus próprios problemas, agarrando-se a utopia da “nova vida perfeita em Cristo” e esquecendo-se que o que deveria ser feito e o como deveria ser nem sempre o são de fato, e precisamos lidar com essa realidade a nosso respeito. 

É óbvio que o ideal é que os casais permaneçam unidos, inseparáveis, mas nem sempre isso é possível. Em geral, nos casos de casais cristãos que se divorciam, o que mais vemos em nossas igrejas são julgamentos, apedrejamento moral e abordagens reducionistas a respeito deles por parte de outros crentes. Mas julgar a história dos outros sem tê-la vivido é fácil, difícil é viver o que a pessoa viveu. Acredito que se nossas igrejas se abrissem a acolher essas pessoas e a ajudá-las, muitos danos e percas seriam evitados, principalmente, para filhos de pais que se divorciam. E sejamos honestos: nossas igrejas estão lotadas de “divorciados” unidos apenas por um papel chamado Certidão de Casamento… (hum, essa foi no fígado, eu sei).

3. Construção de liturgias mais “leves” e objetivas

O assembleiano precisa, realmente, ser estudado pela NASA. É difícil entender o que levou nossos púlpitos a serem usados da forma como vem sendo usados, nos últimos anos. Ninguém aguenta mais aquela falação ininterrupta que nada tem que ver, realmente, com a liturgia cristã e pentecostal. Muita ladainha, narração de experiências pessoais e exposição de assuntos que não mantêm qualquer relação com o teor do culto. Sei que é chocante o que escrevo a seguir, mas admito que por vezes, durante cultos, cheguei mesmo a me perguntar o que eu estava fazendo ali (!). Nossos púlpitos precisam de fato ter a sua finalidade resgatada, e a sua finalidade é a exposição da Palavra!

4. Melhor utilização de recursos financeiros da congregação local 

Ainda gastamos muito com estruturas e pouco com pessoas; investimos muito em eventos e pouco ou quase nada em formação humana; demandamos muitas ofertas para a próxima obra do templo e nem tanto para a próxima ação missionária; levantamos muito dinheiro para pagar cantores e pregadores e nem tanto para qualificar mestres, doutores, futuros pastores, obreiros e missionários. Precisamos utilizar melhor nossos recursos. Estruturas físicas, conquanto necessárias, existem em função de pessoas, não o contrário.

5. Fomento do ensino bíblico equilibrado (não de militância teológica) 

Particularmente, estou horrorizado com o que tenho visto acontecer no campo religioso evangélico brasileiro. Fala-se mais de Calvino, calvinismo, Armínio, arminianismo e outros ismos do que do próprio Cristo Jesus e do evangelho. Conhecer mais sistemas teológicos do que a mensagem do evangelho só evidencia que nos tornamos militantes religiosos e teológicos e não discípulos que levam Jesus ao mundo. Pensemos nisto.

6. Construção de relacionamentos mais duradouros e saudáveis em lugar do tribalismo religioso

Você é evangélico ou evangélica há quanto tempo? Já perguntou a si mesmo ou a si mesma quantas vezes você recebeu a visita de algum irmão em Cristo que não fosse membro de sua igreja local? E de um pastor que não fosse o seu pastor? Raro, não!? Pois é. Tenho dito que nossas igrejas locais se comportam como “guetos” religiosos, “tribos” que só se relacionam quando um conjunto de uma igreja visita outra e é só. E olhe lá…

Como Igreja de Cristo, precisamos erigir pontes e entender que vida cristã não se resume a determinado credo ou confissão teológica, ou a determinado conjunto de usos e costumes adotados por essa ou aquela denominação. Precisamos, como irmãos em Cristo, transcender a essa pobreza relacional que marca nossas igrejas.

Meu desejo para nós, evangélicos, em 2020, é que coloquemos em prática os princípios acima que, embora simples, nos fazem ser mais Igreja, e comunidades de fé mais terapêuticas e menos adoecedoras.

Sou Roney Cozzer,
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