Grego e Hebraico

Por Roney Cozzer

Abaixo, algumas observações muito importantes a respeito do conhecimento das línguas originais da Bíblia que ajudam a desconstruir alguns “mitos” populares entre a Igreja brasileira.

Conhecer etimologias bíblicas não é suficiente para a compreensão dos textos bíblicos.

Nem sempre o conhecimento etimológico será determinante na exegese de um texto escriturístico, embora esse conhecimento seja mesmo fundamental. A análise de uma passagem bíblica passa por fatores variados que trabalham em conjunto. De fato, D. A. Carson alerta para aquele erro que ele chama de “falácia do radical”:

A falácia do radical, um dos erros mais persistentes, pressupõe que toda palavra realmente tem um sentido ligado à sua forma ou a seus componentes. Dessa forma, o significado é determinado pela etimologia, ou seja, pela raiz ou raízes de uma palavra[1].

O mesmo autor cita um exemplo bem contundente e muito utilizado, inclusive, em nosso contexto. A palavra “apóstolo” no grego do Novo Testamento por vezes é apresentada como significando simplesmente “aquele que foi enviado”. Mas os contextos em que a palavra é usada no Novo Testamento, por vezes indica um “mensageiro”, e não simplesmente “aquele que foi enviado”. Essa última definição pode ser ambígua e imprecisa.

Ora, um mensageiro geralmente é enviado; mas a palavra mensageiro também faz pensar na mensagem que está sendo levada e sugere que essa pessoa representa aquele que a enviou. Em outras palavras, o verdadeiro uso no Novo Testamento sugere que, de modo geral, [a palavra para apóstolo] carrega o significado de representante oficial ou mensageiro especial e não “alguém que foi enviado”[2].

Conhecer o hebraico e o grego não faz com que uma pessoa seja um exegeta.

O conhecimento de uma língua demanda muitos anos de estudo e pesquisa, além da prática, no caso dos que procuram a fluência também. Mas a exegese, enquanto disciplina interpretativa, é um trabalho composto, que dialoga com outras áreas de conhecimento teológico e o seu trabalho é feito por etapas. Para um exegeta de fato, conhecer os originais é requisito obrigatório, mas conhecer os originais apenas não faz o exegeta. É preciso dialogar com métodos exegéticos (e em geral, os exegetas adotam um) e conhecer diversos aspectos relacionados à Bíblia, enquanto obra literária. É preciso saber identificar uma perícope, conhecer contextos, dentre outros conhecimentos necessários.

[1] A exegese e suas falácias: perigos na interpretação bíblica, 1992, p. 26.

[2] A exegese e suas falácias: perigos na interpretação bíblica, 1992, p. 28.

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Roney Cozzer é presbítero vinculado a Assembleia de Deus Central de Porto de Santana, Cariacica, ES (Pr. Evaldo Cassotto), autor, professor de Teologia e palestrante. Possui graduação em Teologia, concluiu o Curso de Extensão Universitária “Iniciação Teológica” da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e possui formação em Psicanálise. É mestre em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR) na linha de pesquisa Leitura e Ensino da Bíblia. Participou como autor e pesquisador do Projeto Historiográfico do Departamento de Missões das Assembleias de Deus do Vale do Rio Doce e Outros (DEMADVARDO) entre os anos 2016 e 2018. Cursa licenciatura em Letras pela Uninter e atua como coordenador pedagógico do curso de Teologia na modalidade a distância da Faculdade Unilagos (RJ). Contatos e Atividades na Internet: [email protected] | Blog Fundamentos Inabaláveis

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