Conheça sua Bíblia

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Teologia: Conheça sua Bíblia
MIRANDA, Valtair Fundamentos da teologia bíblica. São Paulo: Mundo Cristão, 2011 – Coleção teologia brasileira

 

O texto de Valtair Miranda é agradável e de leitura fácil. Ele trata de assuntos profundos com uma linguagem clara, tornando o entendimento acessível ao leitor leigo. Descreve, de forma resumida, os temas teológicos em cada livro da Bíblia.

Por Daniel Buanaher

A teologia bíblica é a disciplina que estrutura a mensagem dos livros da Bíblia em seu ambiente formativo histórico. Utilizando-se da sua experiência como teólogo, Valtair Miranda elabora um livro onde ele esboça o contexto envolvido na origem e formação do Cristianismo. Essa obra de Miranda vem apresentar os fundamentos da teologia bíblica, a partir de uma abordagem canônica, ou seja, apresenta a teologia de cada livro ou conjunto de livros da Bíblia. Ele também mostra o contexto de cada livro bíblico. Sem “o contexto”, as palavras podem tomar rumos diferentes daqueles almejados pelos autores canônicos. Eles escreveram para leitores de um tempo muito diferente do nosso.

O autor da obra, Valtair Afonso Miranda, possui graduação em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (2006), mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2005) e doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2010). Tem experiência na área de História, com ênfase em História Antiga e Medieval, atuando principalmente nos seguintes temas: cristianismo antigo e medieval, judaísmo antigo, milenarismo e apocalíptica.

Valtair Miranda é um escritor profícuo. Além da presente obra, escreveu cerca de uma dezena de outros livros, entre os quais, O que é escatologia, pela MK Editora e O caminho do Cordeiro, pela Paulus Editora.

Em Fundamentos da teologia bíblica, o autor busca ajudar o leitor na tarefa essencial de compreensão das Escrituras Sagradas. O autor leva em conta o contexto e as reais intenções dos escritores inspirados dos textos sagrados, e também se propõe a evitar interpretações indevidas, que podem gerar sofrimento, discórdia, abusos e intolerância. Trata-se de uma “viagem” pela história da formação do texto bíblico, uma jornada de fé, perseverança e amor a Deus. Um legado que nos cabe transmitir às próximas gerações. A abordagem de Valtair Miranda, embora comprometida com a pesquisa acadêmica, é acessível ao entendimento do público não especializado, o que torna a obra ainda mais abrangente. Isso é muito provavelmente fruto da sua vivência pastoral, o que o coloca em contato direto com a comunidade de crentes, de maneira que não permanece isolado.

O livro está dividido em duas partes, a saber: “Teologia do Antigo Testamento” e “Teologia do Novo testamento”. E essas duas partes estão subdivididas em 8 capítulos ao todo.

No capítulo um – A formação do Antigo Testamento – Miranda trata de algumas questões sobre como se deu o processo de constituição dessa porção das Escrituras, com destaque da transmissão oral. Aqui o autor aconselha o seu leitor (estudante da teologia bíblica) a dar prioridade ao momento em que o livro nasceu, e não ao momento em que o momento ocorreu. Ele se justifica dizendo que para a teologia bíblica, muito mais importante do que conhecer as histórias é saber porque elas foram registradas. Isto soa tão desafiador e animador, porque quando o leitor da Bíblia toma esta postura descobrirá muita coisa que um mero leitor desatento dificilmente percebe. Miranda sustenta que não basta saber o que está escrito. É preciso saber por que se escreveu o que está escrito! Isso, com certeza, ajudará na compreensão e aplicação do texto sagrado.

Em seguida, ainda no primeiro capítulo, Valtair Miranda aborda as diferenças estruturais entre a Escritura hebraica e o Antigo Testamento protestante. Ele opta pela estrutura hebraica de organização para expor o seu estudo.

No capítulo dois – A teologia da Torá – Miranda sustenta que o objetivo primeiro é responder ao povo de Deus como sua história começou, quem eles eram e por que estavam ali. Aqui ele também analisa o fio norteador ou o núcleo teológico que liga as narrativas dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, e quais eram as grandes marcas da relação desses patriarcas com Deus. Trata também das diferenças entre a promessa abraâmica e a aliança feita no êxodo, o grande evento do passado de Israel.

O autor chama atenção que a Torá, ou lei, é uma resposta para uma das principais perguntas do ser humano: “Quem sou eu?” Nas palavras de Miranda “Isso diz respeito à sua identidade. Sem essa resposta, não sabemos como reagir às circunstâncias nem conseguimos decidir qual caminho seguir. Quando temos alguma crise desse tipo, normalmente nos lembramos de onde viemos, quem são nossos pais, o que eles nos ensinaram. Nosso passado responde à questão de quem somos e para onde vamos. Essa dinâmica entre identidade e propósito também se aplica a um povo, a uma nação. Isto é espetacular, porque a maioria se dirige para o pentateuco apenas para ver as “historinhas” dos patriarcas e para ver as leis que deu para o seu povo. Essas considerações de Miranda, nos ajuda a perceber que a Torá é relevante para o ser humano de qualquer tempo. Pois essas perguntas sempre são levantadas, a história está aí para comprovar esse fato.

No capítulo três – A teologia dos Profetas – Valtair Miranda traça um quadro cronológico dos principais profetas e os situa dentro do contexto no qual pregaram sua palavra profética. Sem dúvida nenhuma esta é uma das partes mais lindas e exaustivas do livro, pois Miranda de forma fácil e clara dá uma base para compreensão dos livros que ele listou com base na estruturação da bíblia hebraica. Isso vai nos conduzir à compreensão dos judeus em classificar Josué, Juizes, 1 Samuel, 2Samuel, IReis e 2Reis como livros proféticos, quando os protestantes os classificam como livros históricos.

Foi nesta secção onde reaprendi que é de tamanha importância estudar compreender o profeta, a sua mensagem e o seu contexto. E isso requer tempo e dedicação.

No capítulo seguinte – A teologia dos Escritos –, que por sinal é o último da primeira parte, Valtair Miranda se dedica à apresentação um conjunto literário intitulado “Escritos”. Estes por sua vez, encontram-se divididos em três grupos: os Livros Poéticos, os Cinco Rolos e os restantes, cada qual com seus enfoques teológicos. É neste capítulo que o autor analisa algumas mudanças de perspectiva na teologia do povo de Deus encontrada nesses textos posteriores ao exílio babilônico.

Na página 70 há uma secção que o autor intitula “Entre os testamentos” que creio ser de elevada observarmos alguns breves pontos que ele coloca. Miranda sustenta que ao fim da leitura do Antigo Testamento, o leitor atento logo percebe uma série de expectativas ainda não cumpridas. Essa sensação de indefinição varria os diversos grupos judaicos dos tempos de Jesus. Para eles, a situação de crise em que viviam só terminaria com a intervenção de Deus, por meio do Messias. No entanto, não aconteceu como esperavam. Eles esperavam um líder político que os libertaria da opressão romana, mas apareceu Jesus, um simples nazareno. Isso foi frustrante para eles. Mas queriam eles ou não o Novo testamento insiste que o Reino esperado foi inaugurado por Jesus Cristo, o Senhor.

A parte 2 — Teologia do Novo Testamento — começa com o tema “A formação do Novo Testamento” (cap. 5), no qual o autor aborda a principal figura que deu origem a esses escritos: Jesus, aquele que veio na “plenitude dos tempos”. Nesta secção o autor Miranda argumenta que Jesus se cercou de pessoas simples, que ninguém convidaria para o casamento da fila, ou para a ceia de ano-novo. Para eles, Jesus apresentou a grande novidade de sua mensagem: Deus ofereceu a salvação aos miseráveis.

Em seguida, Miranda esboça um uma visão básica sobre a relação entre a mensagem que Jesus proclamou durante sua vida e o que se passou a proclamar a respeito dele pelos seus discípulos após sua morte e ressurreição.  O seu argumento principal é que o túmulo vazio trouxe duas perspectivas para a jovem comunidade de discípulos. Primeiramente, se Jesus ressuscitou, ele era realmente o Messias de Deus. Segundo, como ele ressuscitou, sua presença ainda era real no ajuntamento dos fiéis. Quando eles se reuniram, Jesus estava no meio deles. O autor adverte que o leitor não se deve espantar se não começar esse estudo com os evangelhos, mas com as cartas do apóstolo Paulo. Essa escolha se dá porque os escritos de Paulo foram os primeiros a circular entre as comunidades do primeiro século, antes mesmo que qualquer um dos evangelhos tivesse nascido. Outro fato interessante é que Valtair Miranda apresenta as fases do ministério do apóstolo e a relação entre essas fases e as respostas teológicas que ele deu para as igrejas por meio de suas cartas. Isso desde Paulo de Tarso até a sua possível execução por Nero.

O autor, todavia, devido ao propósito do livro, não se deteve numa discussão detalhada sobre a questão de data, local de escrita, etc. optando por apresentar sua opinião, que segue a da maioria dos estudiosos.

Ele também apresenta a proposta teológica de Atos dos Apóstolos e a qual evangelho ele está relacionado, que é o evangelho de Lucas.

No capítulo seguinte – A teologia das Epístolas Gerais – Valtair defende a noção de que, ao contrário do que muitos pensam, as epístolas do Novo Testamento são obras circunstanciais. Nas palavras do Miranda: seu autor as produziu para atender a um problema específico que precisava da sua interferência. Valtair adverte que essas cartas não eram tratados teológicos ou compêndios de teologia. Não falavam tudo sobre a vida espiritual ou sobre Deus. Mencionam apenas o que era necessário para o leitor original. Não temos como encontrar todas as respostas num único livro da Bíblia, apesar de tudo o que precisarmos, para nossa relação com Deus, estar na Escritura como um todo. Neste princípio nos ajuda a perceber que não só as epistolas, mas também os demais livros as Bíblia não devem ser tomados isoladamente, mas que deve ser levado em conta o seu conjunto. Vária vezes o autor defende que cada uma dessas epístolas gerais possui um núcleo consistente com o propósito do seu respectivo autor. Vamos relacioná-las e resumir esses centros teológicos.

No último capítulo – A teologia de Apocalipse – após apresentar as o autor e o contexto de Apocalipse, o autor sugere que se faça uma leitura do que realmente a obra pertente revelar, já que “apocalipse” significa “revelação”. Também o autor julga de tamanha relevância analisar os três níveis de leitura de Apocalipse e definir a relevância de cada um deles para a compreensão do texto.

Resumidamente, Miranda faz isso nos seguintes termos: o primeiro nível é formado pelas sete igrejas da Ásia Menor. João escreveu o Apocalipse para essas igrejas. Seu alvo era encorajar os santos e exortar os inclinados a apostasia. Ele queria trazer conforto e firmeza. Num segundo nível, o Apocalipse falou para todas as igrejas daquela época. Num terceiro nível, o livro de João fala para todas as igrejas de qualquer época.

O texto de Valtair Miranda é agradável e de leitura fácil. Ele trata de assuntos profundos com uma linguagem clara, tornando o entendimento acessível ao leitor leigo. Descreve, de forma resumida, os temas teológicos em cada livro da Bíblia. Eu particularmente, esperava mais. Por isso que acho que é ideal para iniciantes, mas também é um bom manual para quem já se envergou nos estudos teológico porque sua leitura fácil não o torna simplório. É notório que esse foi o objetivo da obra (e da coleção em si), pois, vez por outra, questões de natureza histórica aparecem, mas elas não tomam muito espaço, a não ser para destacar algum aspecto teológico. É um panorama dos fundamentos da teologia bíblica, alicerçados, por sua vez, na história da formação do texto sagrado.

Algumas considerações feitas no decorrer da resenha apenas demonstram – como o autor afirma – que o teólogo bíblico é aquele que “trabalha com o que os autores bíblicos registraram sobre Deus” (p. 14). Fundamentos da teologia bíblica é leitura facultativa para aqueles que querem se lançar no estudo do mais claro e conciso da teologia bíblica.

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