Carta aberta ao meu irmão: "me dá medo o ódio de muitos adultos"
Vida e Morte | Foto: internet
MEU QUERIDO IRMÃO, tenho medo de lembrar de certas coisas boas que fazíamos e sonhávamos em criança e descobrir que algumas delas deixei na infância. Temo saber que muitos momentos bons que partilhamos vivem apenas no passado. Convivo com esse medo, meu irmão. Algumas pessoas podem dizer que isso é normal. Que isso sucede a todos, coisa e tal. Não penso assim.
 
Lembras de quando saíamos só e somente para brincar com os nossos amigos que viviam a muitas léguas da nossa casa? De quando íamos para Paquite a fim de brincar na lângua com os nossos parceiros de artes mesmo que aquilo implicasse em perigos tremendos? Tenho saudades daquilo. Não sei estar sozinho. Aprecio a solicitude, mas não a solidão. Gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas.
 
Mas agora confesso-lhe que tenho algum medo dos adultos. Fiquei toda vida passando horas e demoras espiando conversas de adultos, me misturando nas conversas da nossa mãe com suas amigas, passei toda vida dormindo em quartos cheios de primos e irmãos. Passei toda vida querendo me misturar com gente de toda a estirpe, como quem não tem classe e nem religião para o imobilizar, e hoje alguns adultos me dão medo. Irônico, não é? Eu não previ este medo, irmão. Fico desolado.
 
Me dá medo o ódio e a inveja dos adultos, Tito. Por que odeiam? Não sei. Por que invejam? Também não sei. Mas tenho uma suspeita: alguns são invejosos, pura e simplesmente porque não sabem conviver com o fato de os outros terem algo que eles não alcançaram ou nunca alcançarão. Eles se esperneiam, inventam mentiras, fofocas, elaboram discursos inflamados e até choram. Até choram, Tito. Isso para dizer o mínimo. E eu que achava que os adultos todos eram heróis como os polícias do nosso tempo e tinham um coração leve como os pássaros que costumávamos caçar. Pergunto: não é mais humano rir com os que riem e chorar com os que choram, como aconselha o evangelho? Por que então escolhem chorar com a alegria dos outros, e rir-se com o choro dos outro? Não sei…
 
Espero que estejas ciente de que não estou a descrever precisamente adultos que atendem pelo nome de fulano ou pelo apelido de ciclano. Não estou a falar de A e nem de B, estou a falar de um estágio da alma. Estou a falar sobre o estranho processo de endultecimento que, às vezes, apoquenta a todos. Estou a falar sobre o que acontece ao coração que deixa de ser criança. Do coração que se torna grande demais ao ponto de deixar a ternura para trás. Esquecemo-nos do ensino de Jesus: quem deixa de ser criança não pode ver o paraíso.
 
Sabes, maninho, temo ter passado tantos anos estudando livros e ter deixado de espreitar o coração. Confesso-lhe que essa é uma tristeza que me persegue. Passei pelo tempo achando que toda gente tinha os olhos lindamente brancos e os sorrisos, puros. Não vi que medravam no escuro as piores intenções, ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Tito. Não vi. Foi o Marcos Almeida, num certo dia, numa certa canção, que me ensinou que as pessoas se riem do que é sagrado e ostentam sorrisos amarelos. Eu costumava cantar essa canção com lágrima nos olhos e voz embargada. Agonizava, pasmo de ter caminhado em tantas ruas, tantas cidades, e não ter me dado conta desse ódio nos olhos. Notei os sorrisos, os batuques, os banquetes, as danças, as valsas, o jeito generoso das pessoas olharem para minha pouca simetria, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa, e não me dei conta desse outro lado do coração.
 
Tito, espero que eu não esteja a parecer um pessimista rabugento por abrir-lhe o coração neste nível. Não sou parte da manada que pensa que nada nesta vida se aproveita. Há muito otimismo em mim, maninho. Eu sempre pensei que em Moçambique, Deus nos privou de certas riquezas materiais e nos encheu de outros tipos de tesouros. Recentemente deparei-me com uma girafa, aquilo devia ter uns cinco metros de altura, e sabes o que me veio ao coração? Fiquei espantado com a beleza dela e vi que era mesmo um atributo esplendoroso do altíssimo. Acreditas? Parecia que eu estava a ter uma experiência transcendental, e era, como se o divino falasse comigo. Eu entendi que África significa beleza e uma profunda esperança. Eu elogiei a África, a nossa terra, as pessoas, a nossa gente, porque eu acreditei que tudo isso recebemos de Deus como dádiva. Foi isso que ouvi de Deus. Você acha que Deus mente? Viria sobre mim de propósito para me iludir?
 
Lembra de gostarmos tanto de ir ao mar? Ou já te esqueceste as tantas vezes que ainda crianças pescávamos tantos peixes e os levávamos para a mamã cozinhar? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto do mar. O mar não desiste nunca. Ele luta contra tudo com bravura e doçura. Façamos como o mar, Tito. Façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Você, meu irmão, não me falte nunca desse lado. Com a ajuda de Deus vamos conseguir. Cuide(mos) da Lúcia, da mamã, da Yasmin, das nossas irmãs, cuide(mos) das mulheres da nossa vida. Este mundo anda muito perigoso para as mulheres, Tito. Estão proibindo as mulheres de viverem a plenitude do que é peculiar ao seu gênero. Vamos proteger as mulheres das nossas vidas, e ajudar a proteger as mulheres do mundo. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente. Vamos, sim, Tito.
 
De alguma forma, haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Tito, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Tito, muita coragem vai germinar. Vai, sim.
 
E que Deus abençoe nosso mundo,
guarde as nossas crianças,
guie nossos líderes
e nos dê paz,
em nome de Jesus Cristo.
Amém.
 
Te amo, irmão.


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