Analisando os Usos e Costumes nas Assembleias de Deus – Parte 1

Analisando os Usos e Costumes nas Assembleias de Deus - Parte 1

Assembleia de Deus…

Por Robson Aguiar

Há um tempo atrás em certa Assembleia de Deus não se podia ter ou assistir televisão, pois esse instrumento era do diabo, segundo ensinavam alguns líderes da época.

No conjunto musical da igreja a guitarra demorou para entrar e bateria nem pensar, o barulho que produzia fazia os crentes se remexerem (coisa do capeta).

Até um tempo atrás crianças e adolescentes de um ministério assembleiano aqui no nordeste gesticulavam enquanto cantavam, mas bastou uma mudança de pastor presidente e as adolescentes foram proibidas de continuar transmitindo a mensagem através dos gestos.

Das recomendações para as mulheres segue uma lista de exigências:

Cabelo tem que ser comprido, vestido de mangas, saias abaixo dos joelhos, nada de maquiagem, brincos, pulseiras, trancelins ou anéis, nada de unhas pintadas e nada de depilação de pernas.

Exigência para os homens:

Calça comprida, camisa de manga, rosto sem barba, em alguns ministérios também se proíbe o bigode, não pode usar short ou bermuda, não pode pintar o cabelo, não pode ter cabelo comprido, nada de adornos como anéis, pulseiras, trancelins, se for obreiro tem que usar terno e gravata na igreja – (também houve uma época que até a calça jeans e camisa de meia eram censuradas).

E não para por ai…

É proibido ir à praia no final de semana, nada de ir ao cinema, teatro, parque de diversões, campo de futebol, shows ou ouvir música secular.

O membro que não se sujeita a obedecer essas regras, logo são chamados e disciplinados, punição que muitas vezes fica ao bel-prazer de um líder que por meio de uma decisão monocrática decide o futuro do membro. Isso ocorre por não haver uma regra clara no estatuto que venha dirimir a sua aplicação. Sem contar que poucos membros têm acesso ao estatuto de sua igreja.

Se no sul e sudeste havia uma série de costumes que eram praticados pelos pentecostais da nossa velha e querida assembleia, no Nordeste foram tantos dogmas impostos por meio de “revelações empíricas” que virou um verdadeiro talmude cristão.

Herdamos dos missionários algumas dessas tradições e acrescentamos outras que não estavam no script dos evangelistas estrangeiros.

Hoje, algumas ADs preservam esses hábitos, já outras de outras convenções estaduais não adotam mais essa conduta, há também aquelas que não dizem que sim e nem que não, e ainda outras que embora digam que seguem tais normas, na prática fazem vista grossa.

Também há de se levar em consideração que embora tenham as mesmas raízes e preservem a mesma doutrina, as Assembleias de Deus em outros países por diversas razões não observam os mesmos usos e costumes da igreja aqui no Brasil, afinal não foram aculturadas da maneira que nós fomos pelos mesmos missionários. Também há de destacar que outras denominações brasileiras e estrangeiras nunca adotaram esses preceitos, a exemplo da igreja batista e presbiteriana.

Mas perguntamos como surgiu tudo isso? Até onde isso é importante para o nosso crescimento espiritual ou para salvação? Devemos continuar com essa prática ou devemos parar? O que diz a bíblia sobre o assunto?

Quero convidar o leito a pesquisar comigo. Quero iniciar nossa investigação destacando no mínimo, cinco movimentos: 

Em primeiro lugar, suspeito que as primeiras influências vêm de um movimento que se inicia no 2º Século com Montano, fundador do montanismo. Ele ensinava a buscar através do Espírito Santo, experiências com Deus.

Em segundo lugar vejo no quakerismo (séc XVII) a continuidade do pensamento de Montano, esse grupo surgido na Inglaterra não tinha a Bíblia como a revelação perfeita e buscavam nas experiências místicas através do Espírito Santo o conhecimento de Deus. Os montanos costumavam se reunir para fiscalizar os membros. Roberto Barclay foi o principal teológo desse movimento, deixando escrito Apology for the Quakers (Defesa dos Quacres) Ano de 1678. (CAIRNS 1984)

Em terceiro lugar minha desconfiança paira no Pietismo (do lat piet piedade). Movimento que se iniciou no século XVII em contra resposta a escolástica luterana. Penso que cooperou para esse processo, pois era contra a formalidade produzida pelos reformadores. Importante dizer que o pietismo produziu muitos missionários.  Gerhard e Zinzendorf foram os principais representantes.  (ANDRADE, 1998)

Em quarto lugar buscamos indícios do surgimento dos nossos usos e costumes noutro grupo denominado movimento da santidade (holiness moviment).  Esse movimento surgido no século XVIII, como o próprio nome diz buscava a santificação através da fé, pregavam a mudança de vida, a chamada ortopraxia bíblica. Seus membros acreditavam que recebiam poder do Espírito Santo buscando a perfeição cristã. Destaque para seu membro mais ilustre, o fundador do metodismo, John Wesley – (Pesquise!).

Finalmente chegamos ao quinto ponto, uma senhora metodista levou a Los Angeles a mensagem pentecostal após ter tido uma experiência com Deus na cidade de Houston enquanto visitava parentes. Mas foi num antigo Armazém, localizado na rua Azuza que se difundiu a mensagem pentecostal, e milhares de pessoas passaram a se reunirem ali para buscar o Espírito Santo enquanto ouviam o pastor negro W.J Seymour. O ano era 1906, e o líder daquela igreja embora não tivesse eloquência nas palavras, orava com um fervor tal que os irmãos eram tomados pelo poder de Deus. As pessoas falavam em línguas e profetizavam e muitos entendiam que precisavam mudar os hábitos buscando a santificação. Os jornais da época noticiaram o fenômeno, e em pouco tempo a doutrina se espalhou por todas as cidades, alguns viram aquilo como um movimento anti-bíblico e fanático, mas outros entenderam que tratava-se de um mover do Espírito de Deus. De Los Angeles saíram vário missionários, dos quais dois são os fundadores das Assembleia de Deus, Daniel Berg e Gunnar Vingren. Eles trouxeram para o Brasil o que receberam e aprenderam na Rua Azuza. (CONDE 2000)

Continua…

R.A

2 COMENTÁRIOS

  1. Parabenizo o Pastor Robson Aguiar, por proporcionar a comunidade evangélica uma reflexão extremamente importante para igreja, tendo em vista que os argumentos que davam sustentação à manutenção de determinadas normas de comportamento para um modelo cristão diferenciado, já tem mais poder de convencimento

    • Pastor e Professor Vicente Paulo, muito me alegra sua presença e colaboração nesse espaço. Vejo que estou no caminho certo ao ler suas palavras encorajadoras. Precisamos sim repensar sobre a cultura do empirismo herdada dos nossos primeiros líderes (sobre tudo os nativos). Talvez tenhamos que provocar um debate fora da esfera virtual para nos posicionar público e formalmente a respeito.

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