A Síndrome do Poder X Autoridade Absoluta

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“Se você quiser saber o que um homem é, coloque-o numa posição de poder.”

Por Paulo Cavalcante

Será uma doença ou um simples desvio de comportamento?

Síndrome do poder  x poder absolutoNossa cultura é marcada pela forte influência coronelista. Foram muitos anos sob as ordens destas figuras: os coronéis, que perderam espaço, no decorrer do tempo, para a democratização no país. A figura explícita não existe mais, mas por outro lado está na forma de pensar, agir e sentir de muitos que ocupam cargos, sejam públicos ou privados.

Quantas vezes você ouviu a frase: “… você sabe com quem está falando?” Outra frase muito pronunciada é: “…faça assim porque eu quero que seja assim!” São frases que sempre expõe a primeira pessoa do singular no ápice do autoritarismo para que alguma vantagem seja conquistada ou que a “autoridade” prevaleça. A Síndrome do Poder faz com que as pessoas venham a imaginar que detém um poder maior do que as outras. Muitas vezes, este poder ilusório é herdado por tradição ou pela força bruta.

Estas pessoas são inseguras e com incapacidade de serem transparentes com os seus semelhantes e com o meio em que vive, possuindo uma visão unilateral dos processos de interação. A síndrome do poder ou da cadeira é uma atitude de autoritarismo por parte de um individuo que, ao receber um poder, usa de forma absoluta e imperativa sem se preocupar com os problemas periféricos que possa vir a ocasionar. Este comportamento, surge quando aqueles que não se contentam com sua pequena parcela de poder exorbitam sua autoridade. As principais características comportamentais latentes ou aparentes de uma pessoa que sofre da SÍNDROME DO PODER são as seguintes:

1 – não aceita ser contestada;
2 – persegue aqueles que discordam dela;
3 – age com falsidade;
4 – humilha subordinados na frente de outras pessoas;
5 – manipula para conseguir seus intentos;
6 – gaba de sua posição deixando claro quem manda;
7 – não sabe liderar;
8 – considera inimigo todos aqueles que pensam diferente dela;
9 – possui falta de personalidade;
10 – é dissimulada.

As pessoas que sofrem da Síndrome do Poder são aquelas que “vêm de baixo” e que se consideram vítimas das oportunidades profissionais e sociais. Estas pessoas, na maioria das vezes, são bajuladoras daqueles que lhes interessam, porém, no primeiro momento, puxam-lhes o tapete. São aqueles que nunca estiveram em posição de comando e quando consegue, perdem a noção da diferença entre coordenar e mandar. São pessoas que sofreram alguma discriminação na vida ou não tiveram sucesso em seus empreendimentos pessoais ou profissionais e, agora que podem, querem “tirar o atraso”, porém, da maneira errada, ou seja, como sempre desejaram tanto galgar uma posição de destaque ou até mesmo invejável, agem como se pudessem tudo, não importando os outros, passando por cima de qualquer um.

Se nas relações profissionais privadas isso se torna algo que pode levar até a falência da empresa, imagina essas pessoas agindo no serviço público. A conduta ética no serviço público é o reflexo das atitudes do próprio servidor na sua vida particular. Se ele aprendeu a tirar vantagem sobre tudo para alcançar seus objetivos pessoais, irá fazê-lo, também, enquanto servidor público. Aquilo que é certo para um, pode ser errado para outro. Aquilo que é legal para um, pode ser ilegal para o outro. Então, a conduta ética de qualquer pessoa, principalmente do servidor público deve-se primar sempre pelo bem coletivo, pelo respeito ao seu semelhante e observância das leis.

A falta de credibilidade, principalmente dos gestores políticos, faz com que recaia sobre os ombros dos servidores públicos essa carga ruim de que todos são ladrões ou que não trabalham. Os servidores públicos corretos e que exercem suas atividades com responsabilidade são massacrados, recriminados ou perseguidos por não entrarem nos “esquemas”. Nesse caso, sofrem algum tipo de assédio, ou seja, são forçados a irem contra seus valores para que sejam aceitos, principalmente pelos seus superiores hierárquicos – aqueles que sofrem da Síndrome do Poder, – porém, se mantém firmes atuando de acordo com os princípios constitucionais da administração pública. Por outro lado, alguns servidores que são manipuláveis bajulam aquele que detém o poder pela manutenção do seu emprego e engrossam a massa de servidores sem comprometimento com o bem coletivo em nosso país.

A Síndrome do Poder passa a ser uma patologia quando o comportamento se torna crônico, ou seja, mesmo longe do poder a pessoa quer exercer o poder que pensa que possui. Quando a realidade lhe é mostrada, mergulham em um estado depressivo obsessivo. Ela exerce um efeito colateral de tamanha magnitude em quem se dispõe a sofrê-la, causando na maioria dos casos: cegueira (não visual), ambição, surdez (não auditiva) e, principalmente, amnésia. Há relatos também de “sintomas” de cinismo e desonestidade.

Esta síndrome faz o doente ficar no mundo da lua, achando que será eterno no cargo e que nunca deixará de ocupá-lo. A pessoa se torna incapaz de admitir um erro, procurar ajuda ou se colocar numa posição de humildade para dialogar com urbanidade, coerência e sem querer impor a sua falsa autoridade para conseguir o que se pretende.

Você, portanto, que se encontra neste estado, não esqueça: “o poder é efêmero”. Se quiser ter sucesso, não será sozinho que o conquistará, pois ninguém faz sucesso se não pelo apoio de todos da equipe. Humildade é um bom começo. Se você é dono de uma empresa, não esqueça que poderá ser demitido por sócios, executivos ou credores, pois ninguém se sustenta eternamente no poder sem exercê-lo de maneira ética e legal. Se exercer um cargo público de confiança pelo voto ou por indicação, lembre-se: um dia a confiança termina, os interesses mudam e o poder acaba.

Síndrome do poder absoluto

“O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”, esse foi o pronunciamento mais famoso do escritor, político e historiador Sir John Dalberg-Acton. Acham exagero? Vejam os exemplos da Venezuela e da Bolívia e analise os últimos escândalos do país para constatar o quão próximo de nós esteve essa síndrome.

A história da humanidade está repleta de exemplos desastrosos decorrentes da concessão de poder absoluto a um único homem. No início da Idade Moderna a maioria das nações europeias teve um estreito relacionamento com o absolutismo. A principal obra de Nicolau Maquiavel, “O Príncipe”, escrita para responder a um questionamento a respeito da origem e da manutenção do poder, influenciou as monarquias que a utilizaram para a defesa do absolutismo. Henrique VIII foi quem deteve o poder mais absoluto dentre todos os monarcas ingleses; ao passo que Luís XIV, o Rei Sol, foi o maior absolutista na história da França.

A Idade Contemporânea, período compreendido pelo início da Revolução Francesa aos nossos dias, está marcada pelo desenvolvimento do regime capitalista no ocidente e daí, o constitucionalismo moderno. Os Estados Unidos da América são a mais antiga república federativa presidencialista do mundo. O exemplo desse país serviu de esteio para as novas nações constituídas, quando da libertação do jugo colonialista das grandes potencias da época. Chegamos então a América do Sul com repúblicas presidencialistas na totalidade dos países integrantes do continente.

Mas, nem por isso, a luta pelo direito de controlar a locomoção, o trabalho, a instrução, o pensamento e até a vida e a morte do indivíduo, através do poder absoluto, deixou de existir. Ainda nos arrepiam as raízes dos cabelos as atrocidades perpetradas pelo totalitarismo nazista, há menos de um século, pondo na mão de um só homem o controle de tudo e de todos, com poder absolutamente absoluto. Tentativas não faltaram ou ainda estão em curso em busca dessa hegemonia no planeta. Nem a América Latina nem o Brasil, em particular, estão livres da ação de malucos com a Síndrome do Poder Absoluto. O momento é condizente para a reflexão.

“O poder tende a corromper…”, afirma o historiador citado no início deste texto. Na democracia a corrupção acontece em doses homeopáticas, e vai se avolumando na medida em que ela não é detectada ou desconsiderada em razão da dimensão do dano causado. Um exemplo clássico consiste em misturar o dinheiro público com o privado. Os sinais são evidentes e palpáveis. Basta um bom fiscalizar para encontrar os indícios da tramoia. Eles começam pagando com as “sobras” do Erário a escola dos filhos, a feira semanal, as viagens ao exterior e a troca do carro. Estendem os benefícios para aquela casa de praia ou um apartamento no exterior. São apenas alguns conceitos elementares do aprendizado do poder de tudo poder. E prossegue com uma concessão descabida, uma aquisição espúria até o ponto de desarticular dos troncos, cabeças ameaçadoras de planos e projetos criminosos. Daí em diante é uma escalada sem fronteiras embotando a percepção da realidade e deslumbrando o deslumbrado já com olhos apenas para a ambição por mais poder.

Somente a ação preventiva dos desvios de conduta do candidato a onipotente, onisciente e onipresente, desde o nascedouro, inibirá o crescimento da Síndrome do Poder Absoluto. Quanto ao mais é repetir Abrahan Lincoln no discurso de Getisburg: “…que esta nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra”.

Paulo Cavalcante | Seara NewsPaulo Cavalcante
é pastor, filiado a CIEADESPEL e CGADB; bacharel em teologia com licenciatura plena em Ciências da Religião, Antropologia, Sociologia e Filosofia MEC; Coordenador de Ensino EAD em Pós Graduação da POSEAD – Universidade Gama Filho; Ph.D em Filosofia e Sociologia;  professor de filosofia universitário; psicanalista clinico registrado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP.

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