A indústria de Fake News e a fé como engrenagem principal
O meio cristão caiu como uma luva nesse esquema de crimes virtuais. | Foto: Pixabay

Engana-se quem pensa que as Fake News são meros equívocos de pessoas bem-intencionadas que acabam compartilhando informações por ingenuidade. O cidadão comum morde a isca sem pensar duas vezes.

Por Matheus Henrique Silva Cruz 

Em “Os engenheiros do caos: Como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”, o cientista político Giuliano Da Empoli faz um interessante diagnóstico de como operam as engrenagens das relações humanas do tempo presente.

Sem a preocupação em apontar previsões futuristas, o autor abre as cortinas dos bastidores das principais movimentações políticas do mundo da última década e nos provoca com informações inquietantes.

Segundo Da Empoli, grandes líderes mundiais têm instrumentalizado as novas tecnologias digitais para manipular a seu próprio favor o que há de pior nas pessoas: o ódio, preconceito, racismo, inimizades e etc.

Redes sociais como o Facebook por exemplo, tem como lógica de funcionamento a repercussão e o engajamento. A veracidade do conteúdo pouco ou nada importa, desde que gere curtidas e compartilhamentos.

O Sensacionalismo é a alma do negócio

Nessa anarquia moral dos algoritmos, de acordo com Da Empoli (2019, p.46):
“Um recente estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) demonstrou que uma falsa informação tem, em média, 70% a mais de probabilidade de ser compartilhada na internet […]. Segundo os pesquisadores, nas redes sociais a verdade consome seis vezes mais tempo que uma fake news para atingir 1.500 pessoas

Engana-se quem pensa que as Fake News são meros equívocos de pessoas bem-intencionadas que acabam compartilhando informações por ingenuidade. Essa metralhadora de mentiras é muito bem arquitetada para incitar a fúria das pessoas contra alguma figura pública, organização, ou o que estiver na mira.

Os títulos sensacionalistas geralmente seguem um padrão alarmista, como: Vergonha! Isso é o Brasil! Querem destruir a família! Absurdo! É o Fim! Ouça o que este homem de bem tem a dizer! Essa é a realidade que não querem te mostrar. Sempre com as letras maiúsculas a fim de antecipar a sensação de revolta no leitor antes mesmo do conteúdo ser lido. Além de um apelo final para que o público prove que “realmente se importa” compartilhe a mensagem para o máximo de pessoas.

O cidadão comum morde a isca sem pensar duas vezes. Imediatamente absorve o espírito de odiosidade fabricado em laboratório digital e se oferece voluntariamente como um soldado em uma cruzada que ele vê como uma causa justa, uma Jihad (Guerra santa) contra os infiéis.

Em uma entrevista à BBC News Brasil, o psiquiatra Claudio Martins explicou a razão desse comportamento eufórico: “Quando a pessoa recebe uma notícia que a agrada, são estimulados os mecanismos de recompensa imediata do cérebro e dão uma sensação de prazer instantâneo, assim como as drogas. Ocorre uma descarga emocional e gera uma satisfação imediata. Isso impulsiona a pessoa a transmitir compulsivamente a mesma informação para que seu círculo de amizades sinta o mesmo”.

Só é Verdade o que concorda comigo

Ao que tudo indica, o único critério que o público usa antes de compartilhar algo é se aquela informação confirma a sua visão de mundo. Se corrobora com os ideais do leitor, todo o resto é desconsiderado.

Caso a informação vá na contramão das preconcepções, ela é logo descartada como falsa. Não há o menor interesse em checagem de dados, consulta de fontes, datas ou qualquer coisa que indique a confiabilidade do que está sendo lido. 

A indústria de Fake News e os cristãos como operários

O meio cristão caiu como uma luva nesse esquema de crimes virtuais. Não faltaram teorias da conspiração circulando pelos grupos de Whatsapp avisando que haviam diversas tramoias secretas e macabras que destruiria do dia para noite o que o leitor considerava mais sagrado.

Em 23 de Abril de 2018, foi capa da Revista Época “LOROTOLÂNDIA: como operam DEZ dos maiores sites de notícias falsas do país”. Na lista estava um famoso portal Gospel. Uma mídia voltada para a cobertura dos acontecimentos do mundo religioso, contribuindo diretamente para a disseminação de mentiras e informações distorcidas.

Assim de forma consciente ou inconsciente, os cristãos recebiam e espalhavam toda sorte de mentiras que recebiam sem a desconfiança devida. Informações que surgiam propositalmente amanteigadas com ódio e fel de amargura, com o objetivo de provocar os piores sentimentos possíveis nos leitores sobre o assunto da vez.

Levando em conta que boa parte dos cidadãos não tiveram educação digital e que o acesso a smartphones ainda é uma novidade para muitos. Seriam então os cristãos, como todos os demais as vítimas?

A imediata concordância com as convocações indiretas para manifestar cólera em linchamentos virtuais revelou uma fratura exposta até então disfarçada. Em Tiago 1.14 lemos que: “Cada um, porém, é tentado pelo próprio desejo, sendo por este arrastado e seduzido”.

A isca lançada é mordida não só pela aparência de alimento degustável, mas também porque há uma fome interior no predador. Ela desperta o que está adormecido e mal resolvido internamente. Portanto parece haver uma predisposição muito grande de diversos grupos cristãos a manifestar ira e rancor contra o que lhes é diferente sem ao menos lhes dar o benefício da dúvida.

Quem é o Pai da Fake News?

A mentira sempre foi sedutora e apontada como uma das antíteses de Deus. Em João 8.44, temos um embate de Jesus com um público que reivindicava ser os verdadeiros Filhos de Deus: “Vocês são do diabo, que é o pai de vocês, e querem satisfazer os desejos dele. […] Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e PAI DA MENTIRA. 

Portanto, concluo com essas provocações retóricas para o caro leitor. Por que razões somos presas tão fáceis para a indústria das Fake News? Por que há uma adesão imediata em concordar com esse tipo de conteúdo? Teria haver com um tipo de ensino deficiente da mensagem do Evangelho de Jesus nos púlpitos? Se a Bíblia condena de forma tão veemente a mentira, por que então ela parece combinar tanto com nossos sentimentos ocultos? Afinal:

“Seis coisas aborrecem Deus, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos”
(Provérbios 6.16-19).

REFERÊNCIAS:
– Empoli, Giuliano Da. Os engenheiros do caos/Giuliano Da Empoli; tradução Arnaldo Bloch. — 1. ed. — São Paulo: Vestígio, 2019.
https://epoca.globo.com/brasil/noticia/2018/04/o-exercito-de-pinoquios.html
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45767478
 

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