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Síndrome do pânico e o perdão

Síndrome do pânico e o perdão

Roney Cozzer

Teologia & Discernimento

Um dos leitores do site do Aplicativo Bíblico IDE fez contato pedindo ajuda: “Tenho síndrome do pânico e gostaria de ter mais fé e conseguir o perdão das pessoas que magoei”. Um pedido interessante, tendo em vista que a pessoa que o fez pareceu associar a síndrome do pânico com a questão da falta de fé e com o desejo de ser perdoado pelas pessoas que feriu. Este texto é uma tentativa de ajudar essa pessoa e a todos os demais leitores que de alguma forma lidam com problemas semelhantes.

Nosso tempo é marcado por muitos males e doenças psicológicas. Esse é um fato notável hoje e o número de doenças psicológicas catalogadas pelo CID 10[1] surpreende (cf. o Cap. V[2]). Com efeito, é notável o crescimento dessa categoria de doença não só entre adultos, mas entre crianças também. Houve um aumento de 35 vezes no número de crianças incapacitadas em função de transtornos mentais[3]. Dentre essa diversidade de doenças mentais está a Síndrome ou Transtorno do Pânico. No CID 10 aparece como “Transtorno de Pânico (ansiedade paroxística episódica)”, no subitem F41.0 e é definido da seguinte maneira:

A característica essencial deste transtorno são os ataques recorrentes de uma ansiedade grave (ataques de pânico), que não ocorrem exclusivamente numa situação ou em circunstâncias determinadas mas de fato são imprevisíveis. Como em outros transtornos ansiosos, os sintomas essenciais comportam a ocorrência brutal de palpitação e dores torácicas, sensações de asfixia, tonturas e sentimentos de irrealidade (despersonalização ou desrrealização). Existe, além disso, freqüentemente um medo secundário de morrer, de perder o autocontrole ou de ficar louco. Não se deve fazer um diagnóstico principal de transtorno de pânico quando o sujeito apresenta um transtorno depressivo no momento da ocorrência de um ataque de pânico, uma vez que os ataques de pânico são provavelmente secundários à depressão neste caso[4].

Não se sabe ainda com exatidão o que causa a síndrome do pânico, todavia, identificam-se causas possíveis, como violência sexual, tendência genética, abuso infantil, estresse, dentre outros. Nosso tempo, a pós-modernidade, é de fato um tempo opressor sobre as pessoas. O ser humano já nasce sob muitas pressões, pressões que se intensificam no decurso da vida. Essas pressões são sentidas na vida profissional, na vivência religiosa, na vivência comunitária e familiar, nas tensões criadas por uma sociedade extremamente consumista, dentre outros fatores. A sociedade está doente emocionalmente e consequentemente, adoece emocionalmente as pessoas nela inseridas. E esse fato deve ser considerado quando o assunto é algum tipo de enfermidade psicológica.

O transtorno do pânico tem como característica tirar a pessoa da realidade e lhe causar grande aflição, angústia, uma sensação muito real de que de fato vai morrer. Esse, é claro, é um dos terríveis sintomas dessa síndrome. O processo para a cura começa com a busca de ajuda de um profissional habilitado para esse tipo de problema. Há profissionais que defendem o tratamento à parte de medicamentos, enquanto outros insistem em que há necessidade do uso de remédios. Mas é preciso que se diga que cada caso precisa ser avaliado de maneira individual, específica. Se a procura por um profissional habilitado não ocorre, o problema com a síndrome pode piorar cada vez mais. Vale destacar aqui que acontece da pessoa, na ocasião em que é acometida pelas crises, procurar por um Pronto Atendimento, mas nem sempre haverá ali um médico especializado para esse tipo de problema. Daí a importância de buscar, o quanto antes, ajuda especializada. Há várias formas de se tratar essa síndrome. Uma delas é pela psicoterapia comportamental, que conduz o paciente ao enfrentamento das fobias que desencadeiam a síndrome. Ocorre, na medida em que esse enfrentamento vai acontecendo, uma espécie de desensibilização e o paciente vai aprendendo assim a lidar com esse mal. Mas essa é uma forma possível. Como dito, há outras maneiras[5] e a viabilidade de cada uma precisa ser analisada à luz da condição da pessoa que sofre com a síndrome do pânico.

Intencionalmente ou não, ciente ou não, o leitor do site do IDE fez uma associação que faz muito sentido: perdão e síndrome do pânico. O que ocorre é que sentimentos como raiva, cólera, mágoa, ressentimentos, ira, excesso de auto-crítica e auto-culpa, dentre outros, contribuem diretamente para o surgimento de enfermidades psicossomáticas e para o adoecimento emocional das pessoas. A psicóloga Edna Paciência Vietta é categórica:

Já dissemos anteriormente o quanto a religião pode melhorar a saúde promovendo práticas saudáveis de vida, melhorando o suporte social, oferecendo conforto em situações de estresse e sofrimento e até alterando substâncias químicas cerebrais que regulam o humor e a ansiedade, levando-nos ao relaxamento psíquico. Portanto, a religião pode ser um fator psicossocial e biológico benéfico na recuperação de doenças físicas e mentais […].

Estudos mostram que a prática de princípios religiosos como o perdão, a compaixão, a fé, a esperança, entre outros, “acalmam”, liberando hormônios como acetil colina, endorfina, serotonina, etc., produzindo relaxamento muscular, serenidade, resguardando o corpo físico, melhorando a digestão e absorção de nutrientes, facilitando o sono, aliviando dores físicas, corrigindo a hipertensão arterial, diminuindo a ansiedade, depressão, etc[6].

Como se pode ver, a própria ciência reconhece – a seu modo – a importância de práticas essencialmente cristãs. O perdão é fator condicional para que sejamos perdoados por Deus (cf. Mateus 6.12; 18.35). Além de trazer alegria, paz e conforto ao nosso coração, é uma disciplina espiritual fundamental para a vida com Deus. No decurso da vida, é mesmo inevitável que não tenhamos algum tipo de conflito com pessoas que fazem parte do nosso cotidiano, do nosso círculo mais íntimo de relacionamentos como amigos e familiares. Por vezes ferimos e somos feridos. E se o perdão não é estendido e não é obtido, o quanto antes, a ferida vai aumentando e consequências piores podem advir de um mal estar não resolvido. Obter o perdão das pessoas que ferimos nem sempre é tão fácil. E isso justamente porquê somos tardios em reconhecer quando erramos. Demoramos a perceber que por vezes ferimos com palavras que não deveriam ser ditas da maneira como foram ditas, ou pela ausência de palavras que deveríamos ter proferido e nunca o fizemos. A omissão ao bem também machuca os que estão ao nosso redor. Atitudes como a falta de atitude, a indiferença aos sentimentos e condição alheias, dentre outras ações que se constituem em omissões são também danosas. Com efeito, “Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4.17 – Nova Versão Internacional). Por isso, o primeiro passo para se obter o perdão de quem ferimos é reconhecer nossas falhas. É preciso fazer a seguinte pergunta: Quem realmente eu sou? A maneira como as pessoas nos vêem é importante nesse processo de auto-descobrimento, pois nos permite enxergar áreas de nosso caráter e maneiras como lidamos com as pessoas que nós mesmos não vemos. Há um conceito antigo chamado Janela de Johari (desenvolvido por dois psicólogos nos anos 1950) que chama isso de “área cega”: é aquele território do nosso caráter e da maneira como nos relacionamos com os outros que nós mesmos não percebemos, não vemos (por isso “área cega”), que pode ser bom ou ruim, e que embora nós não vejamos, os que estão ao nosso redor percebem e por vezes, com muita clareza. Se nos fechamos ao feedback externo, essa “área cega” tende a aumentar e com isso vamos prejudicando assim nosso relacionamento interpessoal. Daí a importância de desenvolver amizades verdadeiras e saudáveis, pois o amigo verdadeiro é aquele ou aquela capaz de direcionar o seu olhar para a sua área cega e ajudá-lo a corrigir as suas falhas comportamentais, temperamentais e emocionais. Portanto, seja aberto, humilde e aprenda a ouvir esses amigos verdadeiros. Mas não apenas eles! Mesmo pessoas não tão próximas à nós tecem comentários a nosso respeito dos quais tomamos ciência, direta ou indiretamente, e agora, com as mídias sociais, isso parece ser mais fácil. É preciso considerar esses comentários, sem contudo cair no excesso de auto-crítica e auto-culpa. Quando uma pessoa fala mal de você é até tolerável, mas quando várias pessoas falam mal de você é preciso parar e refletir com mais seriedade sobre sua conduta. Será que todos estão errados e apenas eu estou certo? É preciso entender que amizade não é o mesmo que padronização de sentimentos, opções, convicções religiosas, temperamentos, etc. Amizade é a capacidade de conviver com as diferenças na medida em que se valoriza o outro enquanto ser que ele é. Ser amigo é ser capaz de amar sem impor, suportar fraquezas e falhas morais sem contudo aprová-las, reorientar quando preciso e insistir com a pessoa quando todos desistem dela. Foi isso que Jesus fez por nós. Nosso erro fatal é esperar que as pessoas sejam exatamente como nós mesmos somos, é projetar nelas aquilo que nós mesmos queremos que elas sejam sem respeitar quem elas de fato são! Assim, para perdoar e ser perdoado, se abra ao fato de que você mesmo é defeituoso e precisa ser suportado pelas pessoas. Reconheça quando erra e vá até o ofendido, humilde, mas corajosamente, e peça o seu perdão. Você pode ter o “sim” ou o “não”, mas só saberá se assim o fizer, se assumir esse risco. Se receber o não, saiba: sua atitude demonstra que você abriu uma porta para um relacionamento rompido e certamente indica que você está crescendo em maturidade. E claro, esforce-se continuamente para que o pedido de perdão seja o esforço para corrigir tropeços do caminho, e não atitudes sistêmicas que não se corrigem nunca.

Deus o abençoe neste esforço!

Roney Cozzer,
Apenas um escritor que não deu certo…
Contatos: roneycozzer@hotmail.com e Site Teologia & Discernimento

[1] O CID 10 é uma espécie de catálogo internacional que alista e define doenças e outros problemas que estejam relacionados com a saúde. A sigla CID em português é o correspondente do inglês International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems – ICD (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde).

[2] Disponível em: <http://cid10.bancodesaude.com.br/cid-10/capitulo-v-transtornos-mentais-e-comportamentais> Acesso em 26 dez. 2016.

[3] A epidemia de doença mental. Por que cresce assombrosamente o número de pessoas com transtornos mentais e de pacientes tratados com antidepressivos e outros medicamentos psicoativos. Disponível em: <http://www.psiconlinews.com/2014/10/a-epidemia-de-doenca-mental-por-que.html> Acesso em 26 dez. 2016.

[4] Disponível em: <http://cid10.bancodesaude.com.br/cid-10-f/f410/transtorno-de-panico-ansiedade-paroxistica-episodica> Acesso em 26 dez. 2016.

[5] Como a EMTr (Estimulação Magnética Transcraniana Repetitiva), técnica utilizada pelos psiquiatras pela primeira vez em 1997. Cf. Tratamento para síndrome do pânico. Disponível em: <http://www.sindromedopanico.com.br/tratamento-para-sindrome-do-panico/> Acesso em 26 dez. 2016.

[6] VIETTA, Edna Paciência. Coping religioso e saúde física e mental. Disponível em: <https://evie23dotwordpressdotcom.wordpress.com/tag/perdao/> Acesso em 26 dez. 2016.

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Sobre Roney Cozzer

Roney Cozzer
Roney Ricardo serve a Deus e a Igreja como presbítero e professor de teologia. É membro da AD Vida Abundante, em Porto de Santana, Cariacica/ES, presidida pelo Pr. Paulo Cesar. É mestrando em Teologia na linha de pesquisa Leitura e Ensino da Bíblia, mestrando intra corpus em Teologia Histórica e aluno no curso de extensão universitária "Iniciação Teológica" da PUC/RJ. Possui formação em Psicanálise Clínica, especialização em Psicopedagogia, é licenciado em Pedagogia e História e palestrante nas áreas de Bíblia, Teologia, Educação Cristã e Família; e escreve para a Revista Seara News. Contato: roneycozzer@hotmail.com & roneyricardoteologia@gmail.com

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