Roney Cozzer: O valor da teologia e a arrogância do saber

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Roney Cozzer, professor de Teologia
Roney Ricardo Cozzer, professor de Teologia (Foto: Seara News)

O valor da Teologia e o perigo de se portar com arrogância ante o conhecimento adquirido é assunto bem destacado nesta entrevista ao portal Seara News.

Por Paulo Pontes

Considerando a importância e a necessidade do estudo sistemático da Palavra de Deus, e como tem se alastrado em nosso pais as escolas de teologia, ou núcleos, e até mesmo as igrejas estão abrindo seus próprios cursos teológicos, e tendo em vista a crescente demanda de oferta e procura, a ideia é incentivar nossos leitores a estudarem teologia, e orientar na busca por instituições que primam pelo ensino genuíno das doutrinas bíblicas e não meramente a comercialização de informações teológicas.

O valor da Teologia e sobre o perigo de se portar com arrogância ante o conhecimento adquirido é bem destacado, nesta entrevista ao portal Seara News, pelo professor de teologia Roney Ricardo Cozzer, que é presbítero na Assembleia de Deus na região metropolitana da Grande Vitória-ES. Pós-Graduado em Metodologia do Ensino, o professor vem se destacando, em âmbito nacional, na área da educação cristã por meio do seu trabalho e dos seus escritos. Recentemente, um de seus artigos: Uma Defesa do Pentecostalismo Clássico, foi publicado no primeiro trimestre deste ano, na Revista Obreiro, editada pela CPAD, um dos periódicos mais importantes da denominação Assembleiana e de circulação nacional.

Paulo Pontes – O conhecimento de Deus, considerando sua existência, é algo impossível como alguns pensam?

Roney Cozzer – Defendo um conceito histórico do Cristianismo a respeito da existência e, por conseguinte, do conhecimento sobre Deus: Ele deliberadamente decidiu se revelar à humanidade e, portanto, esse conhecimento é possível. Vale destacar, contudo, que esse conhecimento será sempre limitado, embora suficiente para uma relação saudável com o Senhor na concretude da vida cristã. Pegando emprestada a fala de um dos mais destacados teólogos do século 20, Francis Schaeffer, “a Bíblia não é uma revelação exaustiva de Deus, mas suficiente”. Assim, creio que o conhecimento de Deus é sim possível.

Qual a diferença entre religião e ciência?

Acredito que a diferença crucial esteja no “ver para crer”, típico do empirismo científico. A partir do Renascimento Cultural iniciado na Itália estabelece-se, sem dúvida, uma verdadeira guinada epistemológica, a partir da qual a crença simples já não era mais suficiente para os pensadores da época. Era preciso, pois, experimentar, verificar, observar. A partir desta ruptura significa com o pensamento medieval e com a Igreja Católica que, à época, controlava todas as formas de conhecimento e esterilizava o avanço das ciências, grandes passos foram dados. Neste sentido, é válido destacar que a Ciência trouxe, por meio dos seus mais variados campos de saber, contribuições importantíssimas para a humanidade. Ainda assim, ela continua sendo limitada e incapaz de responder a perguntas profundas feitas pelo homem. A despeito de todo avanço alcançado, o homem lida basicamente com os mesmos problemas com os quais lidava séculos atrás. E a religião se debruça de forma especial sobre estes temas. O Cristianismo Bíblico, com suas convicções bíblicas e cristocêntricas, não apenas procura responder à essas questões como também orientar para a vida. Conquanto não se proponha a dar todas as respostas, pois como dito acima, não se trata de conhecimento exaustivo, mas suficiente, ainda assim oferece fé para a caminhada mesmo que não podendo saber tudo. Religião é fé. Fé não é saber tudo. Fé é saber que há Alguém que tudo sabe e nEle nossa vida está segura. O cristão, fiel à Deus, caminhará a despeito de não saber tudo, ainda que sabendo suficientemente, e nesse saber suficiente está inclusa a convicção de que o Todo-Poderoso é seu Amigo e o conduz no aqui e no porvir. Numa linguagem bíblica, ele prossegue “vendo o invisível” (Hb 11.27).

Pode existir religião sem religiosidade ou vice-versa?

Particularmente, não vejo problema no uso dos termos “religião” e “religiosidade”. Tenho me referido a determinado fenômeno pós-moderno como “semântica pós-moderna”. Como sabemos, a pós-modernidade tem ojeriza a marcos, a valores, a “absolutismos epistêmicos”, e com isso ela acaba por dar novos sentidos a termos que antes eram preciosos para nós, termos como religião e religiosidade. A palavra “religião”, hoje, soa até como ofensa, palavrão. Mas, a meu ver, isso não deve ser levado às últimas consequências. A Bíblia fala de religião em Tiago, por exemplo. E nós somos inerentemente seres religiosos. Nesse sentido, religiosidade é parte da religião. Mas, se por religiosidade, se entende a prática de atitudes e o exercício de atividades cúlticas desprovidas de sentido, de significado à luz da Bíblia, não creio que possa haver religião no melhor sentido da palavra. A verdadeira religião precisa ser viva, dinâmica, essencialmente motriz. Uma religião sem vida é como um carro sem gasolina, como um pássaro que não voa ou como a música sem a devida entonação: torna-se pesada, difícil de ser levada e até adoecedora.

Qual a sua consideração sobre a importância do estudo da teologia?

O estudo da Teologia é absolutamente importante. Isso por diversas razões. Primeiro, porque a própria Bíblia é um Livro essencialmente teológico (esse fato por si só já pressupõe a necessidade de estudá-la sob este viés). Em segundo lugar, o estudo em linhas gerais tende a nos tornar pessoas melhores, e no caso da Teologia penso que essa verdade é ainda mais forte, já que ela trata de temas relacionados à Palavra de Deus e sua correta compreensão, à vida, à Igreja, à sociedade, etc. Temas vitais para a convivência humana. Em terceiro lugar, vivemos num mundo que questiona, que inquire. O dito pelo dito já não é mais suficiente. O filósofo cristão Paul Ricoeur chama nossa atenção para o “dito do dizer” (em francês, le dit du dire). O dito que não se perde no momento em que é dito. É preciso responder com base argumentativa e já encontramos este princípio na própria Bíblia Sagrada, seja em Jesus, seja nas epístolas. E ainda uma última consideração que eu faria é que a Igreja Brasileira, para ser saudável, precisa, via de regra, de uma boa Teologia, precisa de bons teólogos, de bons ensinadores bíblicos. E isso passa pelo estudo sistemático da Teologia. E vale lembrar aqui as palavras do pastor e teólogo pentecostal, Claudionor de Andrade, num e-mail em que me escreveu, “que o verdadeiro teólogo é aquele que, acima de tudo, ama a Deus e à Sua Palavra”.

É possível manter o fervor espiritual e/ou conciliá-lo com a teologia?

Sim, é possível. A História bíblica e do cristianismo é testemunha disso. Grandes teólogos foram também grandes homens de Deus, profundamente piedosos. Paulo, Lucas, Agostinho, Lutero, Huss, Tyndale, Wesley, F. B. Meyer, Pearlman, Stamps, Boyer, dentre tantos outros. Penso que mais importante que esta pergunta é a indagação: “O que entendemos por fervor espiritual?” O conceito de “fervor espiritual”, hoje, é confundido com questões de temperamento, de tom de voz e de “cair”, “sapatear”, “pedalar no ar”, etc. Minha compreensão do Evangelho de Cristo me diz que fervor espiritual é sim falar em línguas estranhas, receber dons espirituais, mas aliado com uma vida de santidade, de evangelização, de comunhão entre irmãos, de submissão à Deus e à Sua vontade. Neste sentido, há muitos cristãos fervorosos cujas vozes nem são ouvidas nos cultos, mas que são sim fervorosos em sua vida cristã prática.

Existem relatos de que alguns crentes fervorosos, compromissados com Deus, dedicados à oração e à leitura da Bíblia, depois de entrarem no seminário ou na faculdade teológica, esfriaram na fé, se tornaram confusos, críticos, incertos e até cínicos. Por que isso acontece e de quem é a culpa?

Sim, é verdade. Isto acontece de fato. Penso que este fenômeno precisa ser considerado sob vários ângulos. Vamos lá. O primeiro é a secularização da Teologia. Especialmente nos últimos anos, temos presenciado a produção e popularização de uma Teologia que, curiosamente, não está a serviço de Deus e de sua Igreja. Vende-se Ciências da Religião como Teologia, quando sabemos que as distinções são abissais, ainda que haja relação entre esses saberes. A meu ver, este é um reflexo dessa secularização. Os objetos de pesquisa são substancialmente diferentes e há instituições ofertando cursos como sendo de Teologia, mas na prática docente nota-se que o pano de fundo é Ciências da Religião. Isso, a meu ver, “desfigura” a Teologia. E mostra desrespeito das instituições que assim procedem para com a Teologia também. Minha abordagem aqui não é em termos de valoração. Ciências da Religião tem seu valor. Mas que se delimitem os marcos. O diálogo? Sim! Necessário. Mas guardadas as devidas proporções. A Teologia tem seus pressupostos básicos. É dogmática sim. E isso é histórico.

Outro fator muito importante a considerar é o fato de que teólogos liberais, em grande medida por sua elevada formação acadêmica, recebem ampla aceitação de suas ideias sem criticidade por parte de seus alunos. Sei que esse vácuo de criticidade ocorre também em Seminários e Faculdades Teológicas conservadoras, mas a diferença substancial é que estes últimos respeitam seu público alvo. Liberais em geral não estão vinculados à Igreja, mas tem seus salários gerados por uma clientela oriunda da Igreja, já que Seminários e Faculdades liberais em geral recebem como discentes pessoas da Igreja. Mesmo assim, desconstroem tudo aquilo em que seus alunos creem. Ouve-se até aquela famosa expressão: “Esqueça tudo que aprendeu…”. Como pedagogo, isso me causa até espanto, já que sabemos que o conhecimento é construído com base em saberes anteriores. O aprendente não é uma tábula rasa. O desrespeito é tamanho que convicções cristãs históricas são tratadas como lixo por vários teólogos de perfil liberal (Atenção: não todos! Sem generalizações). Esquecem-se que convicção é coisa séria. Eu posso não crer no que você crê, mas respeito sua crença. Esse é um limite saudável para a convivência. É sem dúvida um exercício de alteridade. Aquilo em que cremos configura quem somos. E para pegar emprestada uma expressão que ouvi de um grande amigo, “não se desconstroem mundos assim…”.

“Pessoas que se deslumbram face ao conhecimento adquirido e em aquisição, mas que se tornam incapazes de conviver, de exercer alteridade”.

Outro fato ainda importante a ser destacado é que se manifesta, por vezes, uma atitude soberba e imatura em muitos que vão para faculdades e seminários teológicos. O problema não é da Teologia em si, mas do coração humano. Pessoas que se deslumbram face ao conhecimento adquirido e em aquisição, mas que se tornam incapazes de conviver, de exercer alteridade. Conhecimento que por vezes é usado para humilhar, não para servir. Conhecimento que é usado não para construir, mas apenas para polemizar e gerar problemas. Uma brincadeira comum em relação à essas pessoas, é aquela da comparação entre esse perfil de cristão com aquele personagem das “Histórias em Quadrinhos” chamado “Horácio”, que tinha a cabeça muito grande e os braços bem pequenos. Pessoas assim acumulam muito conhecimento – tem um “cabeção” – mas braços pequenos – tornam-se estéreis para Deus, para a Igreja e para a sociedade. Conhecimento assim para quê?

Roney Cozzer destaca o valor da teologia e o perigo da arrogância do conhecimento
Roney Cozzer, professor de Teologia, lecionando. (Foto cedida)

 

Qual a sua recomendação para os que desejam estudar e para os que já estudam?

Recomendo a todos que jamais percam de vista o senso de serviço a ser prestado a Deus, à Igreja e à sociedade. O conhecimento adquirido deve sempre ter um viés prático. Não deve ser “enclausurado”, “encapsulado”. O conhecimento das Escrituras deve sempre ser seguido por um espírito de submissão, humildade, singeleza de coração. Pessoas são o que de mais importante temos em nossa jornada. E por isso precisamos atraí-las, não as repelir. E a soberba de fato afasta os homens de nós. O que é mais intolerável do que uma pessoa soberba e que se porta como detentora de todo o saber? Portanto, as muitas letras, longe de nos fazerem delirar, devem nos impelir ao amor ao próximo, à paciência com os incautos e à uma profunda devoção a Deus. As dúvidas que surgem não devem ser usadas como base de sustentação para o nada. As pessoas tendem a deixar tudo em que crêem face às elucubrações filosóficas e teológicas com as quais se deparam, e por mais que reconheçamos que por vezes em nossas igrejas os discursos sejam muito reducionistas e simplistas, fato é também que a Igreja continua sendo a coluna e firmeza da verdade (1 Tm 3.15). Nela, milhões de pessoas tem encontrado orientação, ressignificado para a vida e liberdade em Cristo. Mesmo na simplicidade de uma pregação desprovida de erudição teológica, a graça de Deus pode fluir gerando vida e cura. Pensemos nisso.

Quem é o professor Roney Ricardo Cozzer?

Um servo, que serve como presbítero na Assembleia de Deus Vida Abundante em Porto de Santana, Cariacica-ES. Graduado em Teologia, possui formação em Psicanálise Clínica, é Licenciado em História e Pedagogia, Pós-Graduado em Metodologia do Ensino da História e Geografia e Psicopedagogia Clínica. Concluiu o Curso de Extensão Universitária “Iniciação Teológica” da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Mestrando em Teologia pela FABAPAR (Faculdades Batista do Paraná) na linha de pesquisa Leitura e Ensino da Bíblia, membro do Grupo de Pesquisa Perquirere: Práxis Educativa na Formação e no Ensino Bíblico. Atualmente, escreve para a Revista Seara News e participa do Projeto Historiográfico do Departamento de Missões das Assembleias de Deus do Vale do Rio Doce e Outros (DEMADVARDO).

2 COMENTÁRIOS

  1. Quero parabenizá-lo pelo excelente conteúdo que trouxe à baila nessa entrevista, irmão Roney! Rogo a Deus que muitos teólogos e acadêmicos de Teologia tenham acesso a ela e que o Senhor continue lhe usando para abençoar nossas vidas. Ah, friso que mais uma vez me identifiquei inteiramente com suas ideias.

  2. Concordo com as palavras do entrevistado, que demonstra grande lucidez e conhecimento de causa ao tratar da importância da Teologia e do cuidado que o estudante deve ter para não tornar-se soberbo, após o contato com a academia.

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