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A prática missionária da igreja evangélica pós-moderna

Uma breve reflexão sobre a prática missionária da igreja evangélica pós-moderna.


Uma breve reflexão sobre a prática missionária da igreja evangélica pós-moderna

Por Daniel Buanaher

Em distintos momentos de sua história, a igreja foi confrontada por diferentes questões que demandam respostas. E isso prevalece até os nossos dias. Questões como a trindade, a divindade de Cristo, o fechamento do cânon, para citar apenas alguns exemplos, têm povoado os anais da história das controvérsias internas e externas da igreja. Por ora, a evangelização é um dos assuntos mais badalados e que inquieta a muitos militantes da fé cristã. Como prova disso, as livrarias oferecem inúmeros livros sobre o tema; mensagens que tratam da evangelização são pregadas; organizam-se cruzadas evangelísticas; vários simpósios, seminários, conferências, congressos discutem sobre missões. À guisa de exemplo, os famosos congressos de Lausanne, encabeçados por John Sttot, Billy Grahm, C. René Padilla e Ralph Winter, discutiram exaustivamente a evangelização fazendo a seguinte indagação: qual é a missão da igreja? A questão, portanto, não é nova e nem simples.

Em linhas gerais, é inegável que a igreja contemporânea discute e rediscute a missão da Igreja. Todavia, há divergências acerca da maneira e abrangência que essa evangelização deve ser levada a cabo. Para ilustrar esse fato, lembro-me de que, não poucas vezes, me deparei diante de conversas de “gente grande” que discute sobre Missões; gente que discute se deve enviar missionários para lugares ricos como a Europa e os Estados Unidos ou se deve continuar a investir esforços apenas em países mais pobres do hemisfério Sul, como os países da América Latina, da África e alguns países da Ásia.

“Não vejo necessidade nenhuma de fazer missões em Paris enquanto crianças morrem de fome na África. É inconcebível como essa gente desperdiça milhões de dólares com gente que já ouviu o evangelho e permanece no afã de adorar seu próprio ventre” – com um olhar caridoso, porém chateado com alguns líderes que fazem missões nos países ocidentais, afirma um. “Não, não, não. Negativo. Os europeus também precisam ser alcançados pelo evangelho. A Igreja Católica tem sido senhora deles por muito tempo, é hora de anunciar-lhes a Palavra da Verdade” – relutante e indignado com a visão arcaica de evangelização do outro, este contra argumenta. Quem já presenciou um desses debates ou simples conversas informais se lembrará.

Outros, ao invés de preferir um determinado espaço geográfico em detrimento do outro, preferem apenas cruzar os pés e negar-se a cumprir o ide de Cristo dizendo-se não ter talento para evangelizar ou mesmo afirmando não ter sido designado para essa tarefa e que ela é apenas de missionários chamados para tal obra. São os chamados indiferentes a necessidade do homem caído.

É claro que o drama é bem mais preocupante e transcende que estas simples ilustrações. O fato é que este assunto tem tirado a paz de muitos e que divide muitos departamentos de missões. Por causa disso, alguns com dentes rangentes negam-se a trabalhar coletivamente com “gente que não combina com sua visão missionária”. E este comportamento ameaça comprometer a pregação do evangelho de Cristo.

Por isso que em meio a visões tão paradoxais e ao descaso de muitos no que concerne à urgência e abrangência da pregação do evangelho do Reino é imprescindível que repensemos com cuidado e objetividade os ensinamentos do mestre acerca da missão que ele incumbiu à sua igreja. Isto para que se possa anunciar com maestria e eficácia as boas novas do nascimento, morte e ressurreição do mestre Jesus, o Deus encarnado.

O campo é o mundo; o tempo, agora!

Ao olharmos para textos clássicos sobre a evangelização como Mateus 28.19, Atos 1.8 e outros mais, nos damos de cara com sentenças que afirmam que o campo missionário é “o mundo” e que o limite são “os confins da terra”. Em outras palavras, o escopo do evangelho transcende as fronteiras geográficas, as bandeiras culturais, os limites sociais, econômicos e políticos. Vamos considerar um pouco mais esse aspecto.

Em Atos 1:8, quando Jesus afirma que seus discípulos tinham que ser suas testemunhas não só em Jerusalém, mas até os confins da terra, percebemos que o Senhor Jesus está mostrando aos seus discípulos até onde ele queria estabelecer o seu domínio. Assim, ele mostra aos apóstolos e a todos os salvos que suas fronteiras não são étnicas, mas mundiais. O mestre Jesus não tinha “ambições minúsculas”, como alguns parecem ter – Ele quer que o mundo todo veja a demonstração do poder evangelho e ouça as boas novas da salvação. Aliás, D. A. Carson[1], renomado teólogo canadense, falando sobre a crucificação do mestre Jesus recorda-nos que “aqueles que conhecem bem sua Bíblia, sabem que Jesus é mais do que o rei dos judeus: ele é o rei de tudo, é o Senhor de tudo. […] É rei do universo.”.

O Pastor Presbiteriano, Hernandes Dias Lopes[2], chega a afirmar que um estudo mais apurado da Bíblia nos faz perceber que “a visão de Deus é o mundo, todo ele; […] o meio usado por Deus para alcançar o mundo é a Igreja, e o tempo de Deus para alcançar o mundo é agora”. Em vista disso, podemos concluir com ele que, Deus não quer alcançar apenas uma família, um grupo, uma igreja ou a uma nação, ele tem interesse em toda humanidade. África, Ásia, América, Europa, Oceania, todos os continentes. Letrados, analfabetos, ricos, pobres, aldeões, metropolitanos, todos são de interesse de Deus.

Alguns clérigos, talvez com boas intensões, focam sua lupa missionária para países que julgam serem carentes. Continentes como África e Ásia são abundantemente mencionados em seminários de missões como alvos de suas investidas missionárias, e, com certeza, estão certos porque ali também as trevas têm feito muitos prisioneiros por meio das amaras das tradições, feitiçarias, tabus, fetiches, etc. Graças a Deus, pelo envio das inúmeras caravanas evangelísticas que números significantes desses continentes hoje podem invocar o único nome digno de ser adorado, o nome de Jesus.  No entanto, algo tem passado batido, uma triste realidade tem sido ignorada. Hoje contamos com a ajuda da mídia para percebermos outra realidade para lá de assustadora.

Vejam que, hoje, não precisamos ser especialistas em jornalismo ou qualquer coisa do gênero para entendermos que a sociedade global está decaída. Nem precisamos recorrer às estatísticas de índices de criminalidade para vermos que o homem cada vez mais está cavando a sua própria sepultura. Basta olhar para os veículos de comunicação facilmente perceberemos o quanto a sociedade está perdida longe de Deus.

O som dos nossos aparelhos radiofônicos, as páginas dos nossos jornais, as telas dos nossos dispositivos eletrônicos denunciam que o mundo tem se manchado de sangue, se vestido de vergonhosa sensualidade e folgado com os prazeres da carne. A sociedade que a lupa missionária de muitos líderes não alcança, aproveitou e se levantou para folgar vestindo-se de roupa de balada para desfilar sua desagradável vergonha (Ex 32.1).

À título de exemplo, a Inglaterra de Charles Haddan Spurgeon, que outrora era um país expressivamente protestante, hoje desfila a classe de ateus que empenham esforços para negar qualquer indício da existência de Deus. Hoje ela responde pelo nome de “Inglaterra de Richard Dawkins”, o patrono do ateísmo. Nessas mesmas terras, Stephen Hawking, o cientista mais famoso do mundo, que está paralisado em uma cadeira de rodas por uma doença degenerativa (esclerose lateral amiotrófica), diz estar em busca da resposta da maior de todas as perguntas do mundo: “qual é a origem de todo nosso universo?”. E através dessa sua busca, de maneira incansável, Hawking enche o mundo de suas teorias (com destaque a “teoria do tudo”) que negam a existência de um Deus criador de tudo. Enfim, ontem a Inglaterra protestante, hoje é ateia.

E o que dizer do Islamismo? Esta religião patrocina banhos de sangue, mina mente de inúmeras crianças e adolescentes em madraças convencendo-os a morrerem em nome de Allá como “homens-bomba”, e consigo ceifam vidas de milhares. Estatísticas nos informam que nos últimos 50 anos o Islamismo cresceu 500%. Enquanto que, o hinduísmo cresceu 147%, o budismo cresceu 153% e o cristianismo no mundo inteiro cresceu apenas 47%.

É doloroso saber que templos que ouviram sermões entusiasmados e inspirados de grandes pregadores foram transformados em museus, mesquitas e lugares de cultos bimensais. Mais angustiante ainda é saber que muitos dos que receberam a mensagem da salvação permanecem de olhos vendados para esta triste realidade. Mas o que mais entristece é ver o solene silêncio fúnebre daqueles que podem fazer alguma coisa. A indiferença dos que podem fazer algo preocupa. Não é apenas a omissão dos perdidos que preocupa, mas o silêncio dos salvos é que perturba. Irmão e Irmã, este também é um campo missionário.

Às vezes é bom paramos para questionarmos a nós próprios, onde está o nosso amor como cristãos redimidos pelo sangue de Cristo? Aonde foi o primeiro amor que nos fazia testemunhar o evangelho de Cristo aos colegas do trabalho, ao barbeiro da barbearia, a vizinha do lado ou o parente sem Cristo? Aonde foi?

A palavra de Jesus aos seus discípulos ainda soa: “Eu lhes digo: Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita” (Jo 4.35). Por isso, convoca-se a todo cristão a posicionar-se e a entender seu papel no corpo de cristo e perante a sociedade, pois não é vontade de Deus que pelejando soqueie o ar como um cego sem rumo.

Poderíamos falar do animismo entronizado na África, onde as pessoas acham que os espíritos estão alojados nos objetos inanimados. Poderíamos esboçar a Índia que cultua 360 milhões de deuses e desvaloriza a mulher. O Japão que se prostra diante de Buda. Tudo isso para mostrar que densas são as trevas que cegam esses povos. Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita.

Precisamos ter visão do que realmente o mundo precisa. Do analfabeto ao letrado, do homem religioso ao ateu, do aldeão das palhotas que nunca teve acesso à civilização ao homem da metrópole… Todos são pecadores. Todos estão perdidos e carecem da gloria de Deus (Rm 3.23). Não são apenas os famintos, os desalojados, os desabrigados que carecem ouvir as boas novas do amor de Deus. Em qualquer cultura, em qualquer idioma, em qualquer nação ou continente, em qualquer classe social, em qualquer segmento religioso o homem está perdido sem Deus, sem esperança no mundo. Em João 4 (v. 35), Jesus nos admoesta: “vocês não dizem: ‘Daqui a quatro meses haverá a colheita’?  Eu lhes digo: Abram os olhos e veja, os campos! Eles estão maduros para colheita”. Levantemos os olhos hoje, não amanhã. Preguemos quer seja oportuno, quer não. Levantemos os olhos e tenhamos uma visão ampla e de longo alcance das pessoas e de suas necessidades, especialmente as necessidades espirituais, no que tange ao relacionamento delas com o criador.

Outra vez digo: templos evangélicos protestantes foram vendidos aos muçulmanos e transformados mesquitas, outros hoje são museus, vários edifícios históricos da cristandade na Europa estão às moscas. Várias Igrejas estadunidenses veem-se em crises de membresia, pois os seus membros preferem tomar um chope a cultuar ao Senhor, preferem cruzar os pés em frente de uma tela de TV e deliciar-se de seus prazeres. O mundo todo se extraviou de Deus. Não nos esqueçamos que a depravação é total, todos foram alcançados pelo “efeito-adão”. Há que munir-nos das armas que nos foram dadas e ir. Ir para que eles possam ouvir. Sim, é preciso colocarmo-nos na brecha e como atalaias de Deus, sem amenidades, eufemismos, nomear o pecado como tal, falar a esse povo a necessidade de acordar do sono e descansar no amor de Deus. Ninguém precisa ser doutor em teologia para isso, basta simplesmente “abrir a boca”.

Uma das memórias mais vívidas que tenho em minha vida, assim que ingressei na faculdade, onde cursei por um tempo a Licenciatura em Engenharia Informática, foi um dos encontros que eu tinha com os meus colegas da faculdade. Nesses encontros debatíamos sobre religião. Na maior parte das vezes, escolhíamos um assunto e cada um o defendia seus argumentos de acordo com a sua fé. Nesses encontros, eu aproveitava para anunciar-lhes o amor de Cristo. Na verdade, meu alvo eram os colegas muçulmanos, pois, ao meu ver, eles eram os mais empedernidos de coração. O que eu nunca imaginei é que um dos meus colegas, católico, me procuraria depois para me perguntar mais sobre a fé que eu professo e que eu tanto defendia com garras e unhas.

“Daniel, me fale um pouco mais acerca do que a Bíblia afirma sobre bebidas alcoólicas” – era um beirense. Comecei ali, então, a explicar-lhe a vontade de Deus para as nossas vidas, passando pelo plano da salvação. Cá para nós, não podia perder aquela oportunidade para falar-lhe acerca da Mariolatria e sobre as imagens de escultura.

Tivemos muitas outras conversas. Até que um dia ele me disse:

– Daniel, os padres não falam as coisas de forma clara. Não só, cansa ouvi-los.

Eu, então, pude aproveitar a oportunidade e fazer um convite ao meu amigo:

– Por que você não faz uma visita à minha igreja? Tenho certeza que não te arrependerás. Lá o povo é animado e tem gente que fala muito melhor do que eu. – Tentando leva-lo a minha igreja, argumentei.

Uma, duas, três, e mais visitas ele fez. Ele conheceu a graça salvadora de Jesus e não a quis largar. José Paulo se rendeu a Jesus, batizou-se e hoje é estudante de teologia.

Abra a Boca e terás a oportunidade de ver o Espirito santo agir poderosamente nas mais diversas situações. Deus não faz acepção de pessoas ele salva quem ele quer na hora que ele quiser, basta apenas falar que o resto é com Ele.

Portanto, a missão de evangelizar o mundo, e não parte dele, não é responsabilidade e privilégio apenas de um pequeno grupo de fiéis que se sente chamado ao campo missionário, mas, de todos. Todos fomos chamados por Deus a fim de proclamarmos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9).

Precisamos ter despertada em nós a paixão de John Knox, que chorava ajoelhado no quarto e levantava as mãos dizendo: “Deus, dá-me a Escócia para Jesus, senão morro”. Precisamos ter a paixão do jovem David Brainerd, que chorava e soluçava ajoelhado sobre a neve clamando a Deus pela salvação dos índios pele-vermelha. Precisamos ter a paixão de Dwight Lyman Mood, que se recusava a ir para a cama sem antes ter falado de Jesus para alguém[3].

Caros irmãos e irmãs, necessitamos ansiar ganhar almas para cristo, tal qual Raquel quando clamou: “Dá-me filhos, senão eu morrerei” (Gn 30.1). Amém.

  

[1] Carson, D. A. São José dos Campos: Editora Fiel, 2011.

[2] Lopes, Hernandes Dias. São Paulo: Arte Editorial, 2012.

[3] Lopes, Hernandes Dias. São Paulo: Arte Editorial, 2012.

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Sobre Daniel Buanaher

Daniel Buanaher
DANIEL ANTÓNIO BUANAHERI é formado em teologia pela Universidade Metodista de São Paulo e graduando em pedagogia pela Universidade Anhanguera. É africano de nacionalidade moçambicana, natural da cidade de Pemba, Província de cabo Delgado. Atualmente reside no Brasil. Daniel Buanaher (como gosta de ser chamado) é o filho mais velho do casal António Buanaheri e Maria Buanaheri.

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