Pastor José Wellington Bezerra da Costa

0
332
Pastor José Wellington Bezerra da Costa
Pastor José Wellington Bezerra da Costa, líder da Assembleia de Deus Ministério do Belém, São Paulo.

Mais de 57 anos dedicados à liderança eclesiástica.

Em entrevista, em seu gabinete, concedida ao Ceifeiros em Chamas, o pastor José Wellington Bezerra da Costa falou sobre seu ministério e sua história dentro da Assembleia de Deus Ministério do Belém, São Paulo.

Envolvido com a liderança eclesiástica há mais de 57 anos, sendo dez como secretário, sete como co-pastor e 38 na presidência. Nascido em São Luís do Curu, no Estado do Ceará, em 1934, e passou a residir na capital paulista em 1954, quando tinha 20 anos. Em 2017 completou 83 anos e, segundo ele, “hoje, o coração é quase 100% paulistano”.

O primeiro presidente da igreja em São Paulo foi o missionário Daniel Berg. Durante 13 anos (1949-1962) ele morou em Santo André. O senhor chegou a conhecê-lo durante esse período?

Eu conheci o irmão Daniel (Berg). Ele frequentava nossas reuniões de obreiros na sede antiga do Belém, onde comprei seu livro de sua própria mão, dando uma importância maior que o valor do livro, como oferta pessoal de minha parte. Ele era um homem de Deus, muito prudente, simples, mas um vaso de bênção nas mãos do Senhor. Ele não era muito eloquente nas pregações. O pregador era o missionário Vingren (Gunnar); enquanto um (Vingren) estudava, o outro (Daniel) trabalhava para pagar os estudos do companheiro.

Os três últimos presidentes da AD Belém em São Paulo tiveram as gestões mais longevas. Além da sua (38 anos), constatamos a do Pr. Cícero Canuto (34 anos), e a do Pr. Skolimovski (sete anos). O que aprendeu sobre liderança com seus antecessores?

O meu contato com o pastor Bruno Skolimovski não foi muito grande, mas o ouvi pregar algumas vezes no Belém; era um polaco um tanto rígido, forte nas expressões, mas um homem de Deus. O pastor Cícero Canuto de Lima foi, na verdade, o nosso grande mestre, e quero enfatizar que uma grande parte de meu ministério, o que eu aprendi, foi na prudência, paciência, fidelidade e santidade desse homem. Foi, na verdade, um mestre que nos orientou em todos os parâmetros da vida ministerial.

Quando iniciou na década de 80, a AD contava com cerca de 80.000 membros, 500 congregações e aproximadamente 1.300 obreiros. Hoje, são 500.000 membros (capital e grande São Paulo), cerca de 2.000 igrejas e 15.000 pastores. A que se deve esse crescimento, além da bênção de Deus?

Na verdade, em primeiro lugar, você concluiu dizendo: a bênção de Deus. Em segundo lugar, nós primamos em dar segmento ao ministério do pastor Cícero (Canuto de Lima). Procuramos dentro da simplicidade do Evangelho, preservar aquilo que para nós tem o maior valor, que são as doutrinas bíblicas e ensinar à igreja como viver separada do mundo, sendo ela um corpo, tendo a cabeça que é Cristo, e é Ele que dá crescimento ao seu próprio corpo. Mas entendemos que cada crente deve ser um ganhador de almas, pois a salvação ganha por nós é tão gostosa que o crente em Jesus não se contenta em ter tudo só para si, mas ele deseja partilhar com alguém, e daí o crescimento da igreja.

Em reunião da CONFRADESP em 2014, o senhor disse algo que repercutiu muito nas redes sociais: “A Assembleia de Deus não é mais a mesma”, referindo-se aos usos e costumes de nossa denominação. Essa mudança é um caminho sem volta na opinião do senhor?

Quando eu disse que a Assembleia de Deus não é mais a mesma, é porque a nossa sociedade também mudou, houve uma evolução em tecnologia, uma mudança no modo de vida muito grande; porém, quando se trata de doutrina bíblica, não pode haver mutação. Doutrina é lei, e lei não se discute. Porém, eu entendo que a igreja, devido ao seu tamanho e crescimento, quanto maior, mais difícil de administrar, mas eu agradeço a Deus porque ainda vivemos na simplicidade do Evangelho.

O senhor como presidente da CGADB andou por todo o Brasil. Quais as diferenças que pontuaria dentro do universo assembleiano em contextos tão diferentes como o nosso?

Como eu fui presidente da convenção durante 30 anos, palmilhei esse Brasil de Norte a Sul. Esse Brasil continental mostra diferenças na própria postura de nosso povo. No Sul você encontra um povo muito mesclado com os europeus; no Nordeste encontra um povo completamente diferente, mesclado com índios, de maneira que a cultura é diferente, os costumes são diferentes. Agora o Evangelho de Cristo tira essa separação e une os povos. Um pastor gaúcho pode usar bombacha e um nordestino pode usar um chapéu quebrado na testa, pois é a cultura de cada um.

Como presidente da igreja da cidade mais populosa do país, um dos grandes desafios é a chamada missão urbana. Sabemos que na capital paulista há bairros como o do Grajaú, com mais de 500.000 habitantes, comparando-se a capitais como Cuiabá! Como fazer o Evangelho alcançar e transformar essas comunidades?

Eu entendo que a igreja, apesar de ter sua sede e administração de forma centralizada, ela se desenvolve mais rápido na periferia. Você falou do Grajaú, zona Sul, que é a mais populosa de São Paulo. Nós precisamos nos dedicar com mais afinco, para que a evangelização esteja mais presente, pois nestes bairros mais longínquos, a criminalidade, a violência é sempre maior; mas como diz o apóstolo Paulo em Romanos 5.20: “Onde o pecado abundou, superabundou a graça”, e acredito que através de uma evangelização bem feita nesses bairros, nós obteremos maiores resultados e um grande benefício para a sociedade local.

O último censo do IBGE constatou um número alarmante de “desigrejados” (cerca de 10 milhões de indivíduos, mais de 20% do universo evangélico). Em sua opinião, qual a causa desses evangélicos nominais e o que pode ser feito para mudar esse quadro?

Nós temos uma grande diferença entre os crentes. Existe o convertido e o convencido; o convertido é um membro da igreja, o convencido é um passeador de igreja. A imprensa, e a forma como está sendo divulgado por grandes grupos, tem trazido este resultado. Sem querer censurar pessoas ou grupos, eu pergunto: Onde é que eles batizam seus crentes? Onde mostram que está crescendo sua membresia? Em suas grandes reuniões, é o nosso povo que está lá, gente que se acostumou com o Evangelho, mas não são convertidos, são os crentes nominais.

Apesar das Assembleias de Deus ter um matiz nordestino, qual a importância histórica da Assembleia de Deus paulista?

Nós temos que considerar São Paulo como a máquina do Brasil. Deus quis moldar nosso Estado com uma miscigenação muito grande de outros povos, pois sofremos uma influência enorme de europeus, asiáticos, africanos, uma mistura muito grande de raças. Mas nosso ministério tem sido abençoado por Deus. Eu digo isso com muita humildade, e toda glória para Jesus, mas nossa igreja é um paradigma para todo Brasil.

O senhor goza hoje de perfeita saúde, graças a Deus. Como o senhor projeta o seu tempo de vida ministerial à frente da CONFRADESP e da diretoria da igreja do Belém?

Eu estou com 83 anos, e estou convicto de que a minha carreira está no fim, não tenho dúvida. Estou naquela palavra de João Batista: “Importa que ele cresça e eu diminua”; então eu entendo que há uma nova geração que chegou. Essa nova geração já está aqui, e temos que entender que as nossas forças físicas vão diminuindo e havendo uma boa orientação, eles terão condições de nos substituir, assim como eu substituí o pastor Cícero (Canuto de Lima), eles também estão prontos para me substituir. Eu estou procurando arrumar a casa, estamos terminando a construção do novo templo; acredito que depois das finanças bem arrumadas, estou pegando o boné e vou me jubilar, não tenha nenhuma dúvida, para deixar que vocês, essa nova geração, tenham a sua oportunidade. Acredito que o que nós pudemos ensinar, foi feito; se assimilaram ou não, será problema da geração que aí está, mas estamos pedindo a Deus que, aquilo que nós ensinamos, vocês coloquem em evidência, para que a igreja não sofra solução de continuidade.

Em sua opinião qual será o seu maior legado para a igreja depois que o senhor se afastar da liderança?

Meu amado irmão, eu acredito que na minha vida pessoal, sou como você disse no início: um nordestino, nascido na cidade de São Luís do Curu, e aprendi com os meus pais desde jovem a estudar e trabalhar. Essas duas coisas se somam e produzem um bom resultado. Quem estuda, tem a mente desenvolvida, e quem trabalha aprende a ganhar o pão; de forma que tenho a minha vida dentro de um patamar simples, pois Deus nunca permitiu subir à minha cabeça qualquer posição. Eu entendo perfeitamente que o maior legado de minha vida é ser um crente na pessoa de Jesus, e deixar como testemunho tanto na vida pessoal como administrativa, os trinta anos como presidente da CGADB. Eu dou graças ao meu Deus, pois cheguei de cabeça erguida e de mãos limpas, e saí de cabeça erguida e mãos limpas; estou deixando aqui um exemplo de vida, vida simples, vivo daquilo que Deus tem me dado através da igreja; tenho procurado viver dentro de um modelo de simplicidade, pois fora isso é o que disse o sábio Salomão: “É vaidade de vaidades”. Eu não tenho vaidade por carros, ou outras coisas, pois acho que isso tudo é tolice e vaidade; não me apego a essas coisas; quero servir ao meu Senhor, e que alguém diga: “O irmão José Wellington passou por aqui, e deixou um rastro de um homem de Deus”.

Quais as diferenças fundamentais entre seu estilo de liderança para o pastor Wellington Junior?

Ele foi criado debaixo do mesmo teto. O DNA dele é o meu (risos). Acredito que dado à diferença de idade, ele dará segmento com uma dinâmica maior, pois é próprio da idade, do meio em que ele vive, pois alguém disse que o homem é o produto do meio em que ele vive (Aristóteles). A minha geração quase toda se foi, mas a geração dele está aí, e vão somar com vocês mais outros novos, para fazer a obra de Deus com aquele dinamismo que se faz necessário.

Como o senhor gostaria que as assembleias de Deus estivessem daqui a 20 anos?

Meu querido irmão, eu gostaria que ela fosse arrebatada! (risos) Nós estamos vivendo o tempo que Jesus previu: “Quando, porém, vier o Filho do Homem, porventura achará fé na Terra?” Há necessidade de que a liderança se dedique à oração, à consagração, a uma vida de santidade para a igreja permanecer no patamar que está. Ontem, eu disse essas palavras (no culto comemorativo): nada de inovação, não necessitamos imitar ninguém, temos nosso modelo próprio, de forma que a Assembleia de Deus já tem sua dinâmica própria, e devemos nos ater dentro daquilo que o Senhor colocou em nossas mãos. Um trabalho que há 106 anos tem dado certo, nós não precisamos imitar os outros, não é verdade? Temos uma rádio funcionando no interior que vamos trazer novamente para São Paulo, se Deus quiser, e trabalhar ainda mais nos meios de comunicação, redes sociais. Sabemos que essas ferramentas têm uma penetração gigantesca, e procuramos usá-la. Eu dou graças a Deus pelo respeito e admiração que eu gozo não só em nosso país, mas também fora, graças a Assembleia de Deus no Brasil. No mês de julho, eu fui convidado a participar de uma reunião com o dono do Facebook (Mark Zuckerberg), em Miami, e no mês de setembro tive um almoço com um dos donos do Google e estive conversando com eles, que têm feito um trabalho extraordinário, e na minha geração nunca pensávamos que existisse um meio de divulgação tão fácil, tão barato e tão eficiente. Eu acho que a Assembleia de Deus deve fazer uso do que está aí, dentro de uma boa orientação, primando sempre a comunhão real em detrimento da virtual.

Sinta-se à vontade para fazer suas considerações finais.

Durante o tempo de meu ministério, Jesus fez muitas coisas, e eu não tenho que me gloriar, toda glória é do Senhor. Mas vi Deus fazer coisas extraordinárias. No tempo do pastor Cícero, nós tínhamos muita comunhão; ele na idade de 90 anos, eu com 45, mas havia um entendimento, uma comunhão. Pastor Cícero chegou certa vez a mim e disse: “Me ajuda em oração, precisamos de um pastor para assumir a igreja em Campo Grande/MT”; e fomos orar. Estava orando numa madrugada, quando senti que alguém chegou ao meu lado e falou, não no tímpano, mas no coração, e me disse o seguinte: O pastor para Campo Grande é “fulano” e aí deu o nome da pessoa. E naquele momento senti uma paz, uma alegria no coração e fiquei com pressa para que o dia amanhecesse e vim para o Belém. Ao chegar, encontrei com o irmão Cícero: “A paz do Senhor irmão Cícero!” “A paz do Senhor irmão José Wellington!” Olhou pra mim e disse: “O que foi que Deus lhe falou essa madrugada?” Eu lhe perguntei: “Como o senhor sabe que Deus me falou?” Ao que o pastor Cícero respondeu: “Ele me disse que tinha lhe falado, mas não me disse o que foi”. Eu relatei a ele e disse que o irmão não era um pastor, era um presbítero, ao que ele rebateu: “Não, se Deus disse que ele é um pastor, é porque ele é um pastor; chame este homem”. Quando este irmão chegou e nós começamos a conversar, ele caiu em um pranto muito grande e disse: “Irmão José Wellington, eu não conheço o Mato Grosso e nunca fui a Campo Grande, mas nesta semana Deus me levou a esta igreja, e explicou com detalhes como ela era”. São coisas espirituais que Deus continua fazendo. Eu só tenho muito a agradecer: aos pastores, à diretoria da igreja, enfim, a todos nossos obreiros, desde o mais simples porteiro ao que está no púlpito dirigindo o culto; eu conto com a somatória do amor e o coração de toda essa gente, porque sozinho não se faz nada, e Deus nos deu graça para estarmos juntos todo esse tempo e por mais de 50 anos estamos aqui; tenho sentido que Deus tem nos unido para realizar esse grande trabalho. O meu propósito é continuar servindo ao Senhor.

ESCREVA UM COMENTÁRIO

Escreva seu comentário!
Por favor, digite seu nome