Internet, o chiclete dos olhos

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Internet, o chiclete dos olhos

Série “Como ter uma vida criativa”

Por Daniel Buanaher

 “Dizer a si mesmo que tem todo o tempo do mundo,
todas as cores na paleta, qualquer coisa que quiser
– isso só mata a criatividade.” 

A inclusão das mídias sociais na maneira como nos relacionamos é tão familiar no nosso cotidiano que fica até estranho imaginar como que a gente conseguia se comunicar com o mundo afora antes da internet. Acho que não estarei exagerando se disser que tem gente que já se esqueceu como é a vida fora das redes sociais. Suas mãos chegam suar quando chega a hora de se encontrar, cara a cara, com quem conversam por um longo período de tempo no Whatsapp.

Em face de uma situação dessas, há duas atitudes básicas. A primeira delas é reconhecer e render-se, isto é, como cantou um dos nossos poetas, “deixa a vida me levar (vida leva eu!)”. E a outra atitude é reconhecer e enfrentar. Aquilo que Paulo escreveu em sua epístola aos coríntios, “todas as coisas me são lícitas; mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.”

Certa feita, Mario Sergio Cortella – aquele filósofo e educador de barba grisalha, voz melódica e estrondosa – advertiu, sem piedade: há pessoas que não navegam na internet; elas naufragam. Porque, para navegar, é preciso ter clareza de para onde se quer ir. E há muita gente que, infelizmente, é afogada no dia-a-dia por informações de múltiplas fontes. Elas pegam tudo o que vêm (muitas vezes, frases soltas sem cabimento) e consomem sem nenhum critério.

Este é, sem dúvida, o caso da maioria de nós que passamos horas a fio nos facebooks da vida navegando, navegando, e quando nos damos conta, já passou um bom tempo. Aplica-se hoje ao computador (e ao smartphone) o que disse Fernando Sabino sobre a televisão: ele é o “chiclete dos olhos”. Mesmo sem sabor, você continua ali, mastigando…

ESCOLHA O QUE DEIXAR DE FORA

Não sem razão, alguém poderia perguntar: “E o que isso tem a ver com a criatividade?” Tudo. Nesta era de abundância e sobrecarga de informação, aqueles que estarão à frente serão aqueles que souberem o que deixar de fora, para assim poderem se concentrar no que realmente é importante. Entende? Sei que a ideia de possibilidades ilimitadas, de que você pode fazer qualquer coisa, é extasiante. Mas não se engane, você não tem tempo para tudo isso. Aproveite o seu tempo da melhor forma.

Antes que você me chame de retrogrado e exagerado, deixe-me ilustrar: hoje, juntando todas as minhas redes sociais, tenho um número considerável de seguidores. E eu procuro sempre aprender e manter a qualidade da comunicação, levando em conta a velocidade, o anonimato e os eventuais ruídos trazidos no pacote. Aprendi muito cedo que: para praticar discernimento é preciso saber “ouvir bem”. E então procuro “ouvir” – entre aspas porque hoje ouvimos com os olhos – as pessoas que estão nas minhas redes e dialogar com elas, para chegar a outro lugar, longe do óbvio e do preconceito. É com a prática do discernimento, do saber “ouvir”, que procuro vencer as dificuldades da era digital em que, muitas vezes, as múltiplas opiniões são formadas e deformadas na velocidade da luz.

Um conselho óbvio, mas necessário: concentre-se no que realmente é importante. Restrinja suas possibilidades para saber para onde você está indo. Uma forma de superar bloqueios criativos é impondo-se algumas restrições. Escreva um poema no seu intervalo de almoço. Ou escreva conto com um tempo cronometrado. Componha uma música com uma quantidade limitada de acordes. Pinte com uma única cor. Não invente desculpas para não trabalhar – faça as coisas com o tempo e o material que você tiver no momento.

Sou cônscio de que quando alguém exagera um argumento, prejudica a causa. Por isso, espero que você tenha entendido que não estou demonizando a ferramenta digital, não mesmo. Eu mesmo, como afirmei anteriormente, sou um grande usuário dela. Quem me acompanha nas redes, e de maneira especial no Instagram, sabe o que estou falando. Apenas tentei apontar os seus perigos, os excessos a serem evitados. Você não deve demonizar a ferramenta e muito menos divinizá-la. Não é assim?

Enfim, recapitulando: criatividade não é apenas o que se escolheu usar, mas também o que se optou deixar de fora.

Escolha com sabedoria. E seja feliz.

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* Série de conselhos sobre como ter uma vida criativa, como construir ideias. São minhas anotações baseadas no livro “Roube como um artista” de Austin Kleon. Aliás, é um livro para ler ontem! Espero poder contribuir para a sua vida de alguma forma.

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