Exigência da sensatez na liderança eclesiástica

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Ministério Pastoral – Liderança

Ministério Pastoral - Liderança EclesiásticaÊnio Caldeira Pinto | Instituto Jetro

Comumente os cursos teológicos propõem disciplinas que versam sobre a eficácia da liderança pastoral, seja na administração ou gestão ministerial. Os professores da área, em geral, induzem seus alunos com teorias simplistas como liderar é influenciar pessoas, os tipos de líder são ditador-autoritário, democrático-paternalista e fantoche-dramático, o sucesso pastoral está em delegar funções e cobrar de seus liderados, entre outros, cuja intenção-mor é fazer que no futuro cada aprendiz assuma uma dessas modalidades e defina sua filosofia de ministério pastoral. Nenhuma dessas conceituações pode ser descartada, afinal elas tiveram potencialidade contextual e foram emergencialmente aplicáveis.

Nunca haverá uma teoria que cumpra a eficácia da liderança pastoral se não integrar elementos interpretativos pautados na prática profissional e conhecimento científico. Este breve artigo tem a finalidade de levá-los a uma reflexão acerca de um tema tão atual, que é a administração eclesiástica, a gestão ministerial e a liderança pastoral, a partir de uma única pergunta: que propostas pastorais de ministério atendem eficazmente a missão da igreja local?

Certamente, muitos já prevêem respostas ou mesmo abrirão suas gavetas e arquivos e puxarão um anteprojeto ministerial propondo (a) crescimento numérico de 5% no ano, (b) divisão em grupos familiares e/ou células, (c) visitação, aconselhamento e reuniões pastorais, (d) estudos bíblicos temáticos para a Escola Dominical, e até mesmo algumas propostas mais versáteis, como dobrar o número de membros, triplicar o número de ministérios e quadruplicar a arrecadação mensal. Obviamente esse tipo de projeto pastoral ludibriaria qualquer comunidade e conselho eclesiástico.

Vou demorar um pouco para responder à pergunta acima. Antes, convido-o a refletir sobre alguns tópicos que considero relevantes.

1. Significância tecnológica e acesso à informatização

Há ainda um elevado número de pastores recém graduados que não têm acesso à internet e computadores. De uma classe de 53 alunos do primeiro ano de Bacharel em Teologia, apenas 16 possuem computadores próprios, e desses somente 12 têm acesso à rede mundial de computadores. Dos alunos graduandos, de um total de 24, somente 6 não têm computadores próprios, e do restante, 8 tem acesso à internet. A situação fica mais conflitante quando ficou constatado que nenhum deles conhece qualquer tipo de base de dados, controle do rol de membros e confecção de atas, agendas e calendários informatizados. De 23 igrejas evangélicas visitadas, 18 ainda registram as reuniões de conselho em livro-ata, datilogram o endereço de seus membros em carões e não possuem quaisquer tipos de registros de atendimento pastoral (aconselhamento, oração, visitação, entre outros). E somente uma igreja demonstrou ter um tipo de programa totalmente digitalizado e correspondente à era da informação, inclusive os sermões sendo gravados e disponibilizados na internet após 10 minutos de ser proferidos.

Na verdade, os líderes não conhecem em detalhes seus membros porque não coletam dados. Vejamos mais uma análise. Se perguntássemos aos líderes eclesiásticos sobre o nível de escolaridade de seus membros, a resposta seria sempre baseada no bom senso e no olho clínico do pastor, mas se pedíssemos relatórios originais, nada encontraríamos. Por exemplo, ao se cadastrar um membro, o maior número de informações possíveis dele deve ser retirada a fim de que o relatório produzido seja útil para a interpretação do líder. Deve-se perguntar o nome, o estado civil, a escolaridade, a empregabilidade, a filiação, as habilidades naturais e técnicas, os sonhos e desejos pessoais, as aspirações para o ministério cristão, a experiência religiosa, a participação nos ministérios da igreja, os deveres da cidadania, a voluntariedade, o lazer, o padrão de vida social, as crises familiares e financeiras, o número de dependentes, o cuidado pessoal e familiar, e outras coisas.

Um líder que tem diante de si relatórios que mostram o nível de escolaridade 1º grau incompleto, saberá rever a linguagem e, ao adotar material de educação cristã, ajustá-lo-á conforme a necessidade do grupo. Diante de um relatório que diz que somente os homens trabalham e as esposas cuidam do lar, e cada família tem em média quatro filhos, o líder deverá atentar para que juntar panelas ou confraternizações sejam somente as ocasiões especiais. Por outro lado, uma amostragem que comprova a geriatria dos membros e a ausência de jovens, o líder reorganizará seu planejamento de visitação, evangelização e captação de material humano. Enfim, há vários exemplos e todos convergem para uma única realidade: o líder deve usar a tecnologia para conhecer profundamente suas ovelhas.

2. Insensatez administrativa e incompetência gerencial dos líderes

Nesse tópico encontram-se os líderes que propõem projetos a uma comunidade cuja realidade é desconhecida. Geralmente, as comunidades exigem que os líderes recém formados lancem projetos ministeriais para que os membros sintam-se motivados com os desafios e possam entender como será o trabalho do novo pastor. Vejamos um exemplo.

Um pastor recém-formado assumiu uma comunidade em uma região humilde da cidade. Ao ser designado, prontificou-se a, perante o concílio, em um ano, aumentar a arrecadação e tornar a congregação auto-sustentável. Então, uma das suas primeiras atitudes foi preparar sermões desafiando os irmãos à contribuição. Do que esse pastor nem se deu conta é que, naquela comunidade, cerca de 80% dos membros eram de desempregados e, na sua maioria, mulheres que cuidavam do lar. Durante dois meses, as pregações se tornaram efusivas e a recepção desastrosa. As pessoas se sentiam cobradas e desmotivadas. As ações pastorais se tornaram cumpridoras da meta aumentar a contribuição, no entanto, os recursos disponíveis e a disponibilização do material humano foram usados incorretamente.

Um outro exemplo pode ser visto na seguinte situação: em uma comunidade havia uma lista de 52 ministérios constituídos e organizados pelos membros. Ao ser questionado, o pastor responsável pelos ministérios disse que cada vez que um membro trazia uma necessidade, surgia um ministério. O princípio está correto, mas foram encontrados ministérios absurdos, como ministério de adoração permanente, onde somente músicos podiam participar, ministério de idoneidade e experiência divina, cuja finalidade era agregar homens e mulheres da terceira idade em terapias ocupacionais, entre outros. Os ministérios foram organizados diante de desejos pessoais. O mais sensato agora seria reagrupar os ministérios para que em futuro próximo não haja discrepâncias e facção no corpo.

3. O líder é o intérprete da sua igreja

Cabe ao líder dotar-se de ferramentas que lhe permitem ajudar na exegese de sua comunidade. Vamos a mais um exemplo. É muito comum, na filosofia de ministério pastoral, a síndrome da grama mais verde, ou seja, líderes fazem cópias literais de ministérios existentes a duas quadras da sua comunidade. E, se for bem analisado, até os serviços semanais são repetidos.

Por exemplo, desde o ano de 1988, uma igreja começou a reunir-se, às terças-feiras, às 15h, com breve louvor, ministração da Palavra e oração. Depois de quase dois anos, todas as demais comunidades começaram a copiá-la. E se for comparar os ministérios internos, a semelhança é mais grotesca ainda. A mesma igreja preocupou-se em ensinar e treinar os membros com professores capacitados em educação teológica e cristã, e, obviamente, muitas outras começaram a fazer o mesmo.

Enfim, o líder não interpreta a sua comunidade, ele, na verdade, espera ver o que está acontecendo na comunidade vizinha para, em semanas subseqüentes, instalar e copiar os mesmos serviços. Hoje, mais do que antigamente, o que diferencia a concorrência no mercado eclesiástico é a qualidade do produto e os serviços agregados.

Há igrejas para todo e qualquer tipo de pessoa, há estilos litúrgicos tradicionais e contemporâneos, há sermões eloqüentes, dramatúrgicos e introspectivos, mas sempre haverá uma igreja que se diferencia da outra, essa, sim, é a igreja que o líder sabe interpretar, ele entende a sua necessidade, conhece as suas ovelhas e as chama pelo nome.

A proposta viável é que hoje os currículos dos cursos de Bacharel em Teologia voltem-se para disciplinas mais contextuais, do tipo administração e legislação eclesiástica, gerenciamento e gestão ministerial, captação de recursos, desenvolvimento e planejamento estratégico missionário, cuidado pastoral e dos membros, além é claro, da informação e computação ministerial. As instituições teológicas, os institutos bíblicos e as agências de consultoria são as mais capacitadas e indicadas para essa inovação. Elas possuem pessoal capacitado, material de apoio e treinamento específico. Infelizmente, as igrejas ainda vêem a tecnologia como adversária e acham que a inovação é a manifestação demoníaca, o lobo vestindo-se de cordeiro.

A verdade é que a igreja precisa renovar-se, os líderes precisam inovar-se. Ambos necessitam usar a tecnologia como aliada. Os que a rejeitam, certamente, serão eliminados pela lei da sobrevivência ministerial: é insensatez; os que a adotam, sabiamente, serão competentes e eficientes: é sensatez.

Então, vou responder à pergunta: que propostas pastorais de ministério atendem eficazmente a missão da igreja local? Do líder, espera-se: (a) competência comprovada pelo treinamento pessoal e técnico recebido, (b) sabedoria no uso da tecnologia e interpretação dos dados, (c) criatividade na elaboração dos ministérios e planejamentos, (d) humildade para pedir ajuda de agências de consultorias e instituições especializadas, e (e) integridade e paixão pelo cuidado pastoral e dos membros.

A sensatez, portanto, bateu às portas da liderança pastoral e disse: (a) Vós, líderes, devem ser assessorados com softwares (programas de informática) desenvolvidos especificamente para coleta de dados e produção de relatórios; (b) Vós, igrejas, devem integrar-se na web e disponibilizar os serviços online aos membros e demais agências e comunidades, inclusive, tornando a confessionalidade cristã conhecida no mundo.

Ênio Caldeira PintoÊnio Caldeira Pinto
Doutor pelo Trinity International University (Deerfield, EUA), Mestre em Teologia pelo Western Theological Seminary (Michigan, EUA) ; Especialista em Literatura Brasileira pela UEL (Universidade Estadual de Londrina);  Licenciado em Letras pela UEL  e Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico de Londrina (PR). Foi professor de tempo integral da Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA). É membro da Igreja Presbiteriana Independente.

Instituto Jetro | Pastoreando com o coração, liderando com excelência.

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