Evangélico, eu? Sim e não…

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Evangélicos

Se há um termo desgastado hoje na Igreja brasileira, este termo é “evangélico”.

Algumas pessoas até se recusam a usar esta palavra mesmo pertencendo a uma igreja evangélica. Tal rejeição se dá pela conotação (negativa) que a palavra assumiu, em grande medida, para a sociedade que nos observa. 

Etimologicamente falando, o termo origina-se da palavra grega ευαγγελιον (euaggelion) que significa basicamente “boas novas”. No contexto neotestamentário, naturalmente, o termo indica as boas novas concernentes ao Reino de Deus, à vinda do Filho do homem para salvar a humanidade (Jo 3.16).

Pensando na palavra “evangélico” à luz de seu étimo, eu não hesitaria em afirmar que sim, sou evangélico, mas pensando a palavra “evangélico” em termos de semântica, aí a história mudaria um pouco. Julgo que muitos leitores haverão de se identificar com o que passo a mencionar a seguir.

O fato é que o termo “evangélico”, hoje, vem sendo usado para identificar muitas pessoas, em muitas denominações, que vem praticando coisas nem sempre alinhadas de fato com o Evangelho de Cristo, por mais paradoxal que isto possa parecer. A despeito desse senso de pertença, de ligação, constata-se que há evangélicos que não praticam o Evangelho. Neste sentido, peço ao Senhor que me ajude a não ser evangélico. 

Que práticas são essas? Quando percebo que os evangélicos não são evangélicos à luz do Novo Testamento? Eu respondo da seguinte maneira:

Se ser evangélico é fazer marcha para Jesus com intenções mais políticas do que de fato evangelizadoras, então eu não sou evangélico!

Se para ser evangélico eu preciso pagar o dízimo e tratá-lo como obrigação, então eu não sou evangélico!

Se ser evangélico significa só ajudar quem frequenta todos os cultos e dizima, então eu não sou evangélico.

Se para ser evangélico eu preciso andar maltrapido, não cuidar da aparência e tratar a minha sexualidade como tabu o tempo todo, então eu não sou evangélico.

Se para ser um evangélico eu preciso estar sempre bem, seja espiritual, física e emocionalmente, então eu não tenho condição alguma de ser evangélico!

Se para ser evangélico eu preciso ser especialista em sistemas teológicos e ficar digladiando com pessoas em grupos de WhatsApp e Facebook, então eu definitivamente não sou evangélico.

Se por evangélico entende-se aquele que ama ouvir pregações no Youtube, especialmente as de pregadores ditos pentecostais que são famosos, então eu não sou evangélico. Eu detesto a maioria do conteúdo das pregações que ouço hoje, especialmente dos pregadores pentecostais famosos. O que mais vejo nessas mensagens é autoafirmação, vaidade tosca, exibição do que não se tem e muita, mas muita empáfia e cumprimento de uma performance. Para ser sincero, me dá nojo…

Se para ser evangélico preciso sacrificar projetos de crescimento pessoal e familiar porque não posso perder um culto, porque preciso estar em todas as atividades da igreja local, então eu não sou evangélico. Acredito que o culto a Deus não se limita só ao momento do culto, no templo. Acredito que o meu desenvolvimento pessoal e familiar também glorifica a Deus, refletindo positivamente na igreja da qual faço parte, inclusive.

Poderá alguém então perguntar: O que significa ser evangélico, para você, então? Ao que eu respondo:

Ser evangélico – em minha compreensão – é marchar em direção a quem passa fome, tem frio, está doente e necessita de um ombro amigo.

Ser evangélico para mim é entregar alegremente meu dízimo, por entender que Deus é soberano sobre minha vida – toda ela! – inclusive nas finanças. Dizimar, assim, não é resultado de uma obrigação ou imposição, mas um ato de mordomia cristã e livre voluntariedade. Voluntariedade que se volta para Deus e para a comunidade de fé à qual sirvo.

Ser evangélico, em meu entender, é ser como Jesus. Simples assim. Jesus amou os que o matavam. Creio que isto me ensina que como evangélico devo ajudar não apenas quem atende nossos padrões, frequenta nossos cultos e fala nossa linguagem, mas a todos quantos o Senhor colocar em meu caminho, comunicando-lhes assim a graça de Deus.

Ser evangélico, para mim, é ser alegre, mesmo nas tribulações da vida. É reconhecer que sou homem e que foi Deus que me fez assim. Ser evangélico significa sim ter auto-estima e cuidar-se, pois não há nada no Evangelho que indica que eu necessariamente deva viver como um ermitão de andrajos a peregrinar.

Ser evangélico é continuar sendo ser humano, e seres humanos possuem fragilidades, sejam elas físicas, emocionais ou espirituais. Adoecemos! Isto é um fato da vida. Ser evangélico não me isenta disto. Muda sim a maneira como lido com isso. Me torna cônscio de que não estou só. O Eterno está logo ao lado.

Ser evangélico, para mim, é conhecer mais a Cristo do que a sistemas teológicos! Conheço a sistematização da dogmática cristã, e me delicio nela, mas o faço para conhecer a Cristo e a fé que professo. A Dogmática Cristã não é para mim um fim em si mesma. E me esforço para ser capaz de dialogar e amar os que não estão na matriz teológica e confessional que professo. Isto é cristianismo para mim.

Venho de uma formação até bem conservadora. Conheci a denominação à qual pertenço numa fase ainda muito rígida, em diversas áreas. Questões como lazer, sexo, bom humor, vestimentas e outras coisas eram sempre tratadas com muito rigor e repressão. O fato é que este esforço e excesso de “santidade” não gerou crentes maduros na fé. Ao longo dos anos venho rompendo significativamente com esses estereótipos religiosos que mais ferem e machucam as pessoas do que de fato tornam mais leve suas vidas, vidas que naturalmente já não são fáceis. E sei que alguns dirão: Mas o Evangelho é sofrimento! Sim, é verdade. Mas se voltar ao Novo Testamento perceberá que Evangelho é sofrimento em pelo menos ou por pelo menos duas razões principais:

1) sofrimento em função da renúncia ao eu, aos desejos com os quais lutamos e que são contrários à vontade Deus; e,

2) sofrimento por perseguições que sofremos por amarmos a Deus e a Cristo. Perceba que esse sofrimento não é decorrente de dogmas e imposições dogmáticas perpetradas pelos próprios cristãos, mas sim sofrimento por causa de Cristo, pela causa de Cristo.

Prof. Roney Cozzer

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Roney Cozzer é graduado em Teologia e concluiu o Curso de Extensão Universitária “Iniciação Teológica” da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). É mestre em Teologia pela FABAPAR (Faculdades Batista do Paraná) na linha de pesquisa Leitura e Ensino da Bíblia. Membro do Grupo de Pesquisa "Perquirere: Práxis Educativa na Formação e no Ensino Bíblico" e participa como autor e pesquisador do Projeto Historiográfico do Departamento de Missões das Assembleias de Deus do Vale do Rio Doce e Outros (DEMADVARDO). Possui formação em Psicanálise Clínica, é Licenciado em História com pós-graduação em Metodologia do Ensino da História e Geografia. É licenciado em Pedagogia com pós-graduação em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Contatos e Atividades na Internet [email protected] Site Teologia & Discernimento Blog Fundamentos Inabaláveis 27 9 9978-4158 (Vivo e Whats)

2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente exposição, meu caro Roney Cozzer. De fato, ser EVANGÉLICO é muito mais do que “ser evangélico”. a ortodoxia precisa ser acompanhada da ortopraxia.
    O IBGE aponta que o Brasil tem mais de 4 milhões de “evangélicos não praticantes”. De quem é a culpa? Onde está a falha? Falta ensino bíblico nas igrejas, ou falta interesse dos “evangélicos” em conhecer às doutrinas bíblicas?
    Compare os números em relação à frequência à Escola Dominical e Culto de Doutrina com os shows gospel. Como está escrito: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento” (Oséias 4.6).

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