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E essa tal da felicidade?

Happiness

Por Daniel Buanaher

Quando recentemente completei um quarto de século – 25 anos de idade – comecei a fazer-me algumas perguntas existenciais. Ecoaram em mim indagações perturbadoras como: “será que estou no lugar certo fazendo a coisa certa? E quando tudo isto terminar, o que virá depois? O que não estou fazendo que deveria estar fazendo? [Ou vice-versa]” Embora estas perguntas sejam, ao meu ver, cruciais, confesso que nenhuma delas provocou tamanha regressão em mim quanto a pergunta: eu sou feliz?

Parece paranoia, não é? Mas para quem está mudando de etapa na vida, para quem está entrando num novo ciclo na vida, a pergunta tem a sua importância, acredite.

É verdade que, relativamente, tenho pouca idade. Mas já vivi tanta coisa que, as vezes, começo a desconfiar da minha idade. Me pergunto: não será que nasci nos anos 1980 e meus pais se esqueceram disso? Considerando que na região onde nasci, antigamente o pessoal tinha dificuldades de acertar nas datas em que a criança nasceu. E, então, depois de algum tempo, após o nascimento, atribuíam alguma data qualquer à criança, relacionada a algum fenômeno natural que se deu na época do nascimento. Fico pensando nisso.

Eu também passei por tantas tribulações: perda de um irmão mais novo, por quem nutria profundo amor; cura, graças a uma intervenção divina, de uma doença considerada fatal, a dengue hemorrágica, que me deixou internado por cerca de duas semanas num hospital, em Vila Velha-ES, até hoje lembro do espanto do médico, quando me viu recuperado “do nada”; quase fui esfaqueado por portar uma Bíblia e uma mensagem de salvação etc.

Para ser honesto, pouco desfrutei dessas coisas que muitas pessoas consideram indispensáveis a uma vida feliz: muito dinheiro no bolso, luxo, e muitas mulheres para satisfazer aquilo que Paulo, o apóstolo, chamou de paixões carnais. Lidei com pessoas poderosas (seja na religião ou em outras esferas) e o que deles colhi me faz indagar por que certas pessoas querem o poder a todo custo. Gente que vai pisando umas às outras, sem piedade, para alcançar “altos patamares” da vida. Conheci pessoas assim, talvez foi isso que me levou a escrever certa vez, que sou apenas um pirilampozinho no meio de tantas estrelas em noite singular. Contudo, um Pirilampo Feliz.

Os que medem a felicidade, a fruição pela vida, pelo ter e não pelo ser talvez se decepcionem comigo. Porque hoje, vivo em uma humilde República de Estudantes, em Pindamonhangaba–SP, e o quarto que ocupo tem como bens de relativo valor: um notebook que uso para estudar e trabalhar em meus projetos; e livros, meus amados livros. Estou reclamando? Ou me autocomiserando? Não! Estou apenas rebobinando minha situação existencial para refazer a pergunta que fiz no início deste texto.

Sou feliz? Respondo que sim, e muito. Não afirmo isso como recurso à autocomplacência. É plena verdade que os lugares mais íntimos do meu ser são habitados por uma felicidade verdadeira. Aquela felicidade que embora, às vezes, esteja vivenciando situações difíceis não me deixa perder o brilho nos olhos, o prazer em Deus. E se alguém me pergunta: “por que este rapaz insiste tanto em ser feliz assim? Como pode?” Tenho algumas razões para explicar. E uma delas é a mais importante.

Felicidade custa caro?

Certos aspectos da vida aparentemente banais me fazem feliz, como gozar de uma boa saúde e ter sido internado em um hospital, até hoje, uma única vez, há quatro anos. Sou feliz por jamais ter me faltado um teto para reclinar a cabeça e nunca ter padecido Fome. (Falo isso me lembrando dos meus muitos conterrâneos africanos que muitas vezes vão à cama sem saber o que comer no dia seguinte. Que a solidariedade aconteça e amor vença, de fato!)

Sou feliz por pertencer a duas famílias afetuosas; a primeira é a biológica, que me dedica um amor entranhável e a segunda é a espiritual, aqueles que ganhei desde que Deus me fez filho seu por meio do seu Filho Jesus. Esta segunda família é enorme, como areia da praia, espalhada pelo mudo afora, e constantemente me surpreende. Imagine você: eu, um moçambicano da periferia da Cidade de Pemba, venho ao Brasil estudar Teologia, pensando que estaria sozinho nesse Brasil tão vasto. Cheguei a pensar assim. Contudo, nunca estive tão enganado. A gente daqui me deu lições de amorosidade e solidariedade que até hoje fico acanhado só de pensar. Nunca me esquecerei; jamais!

O principal motivo da minha felicidade e aquilo que dá o sentido ao meu viver é Jesus Cristo, que me revela quem é Deus. É Ele que imprime maior sentido à minha vida e me permite caminhar nesta estrada da vida procurando, sempre, servir aos outros em amor, na tentativa de viver uma dimensão maior do Reino de Deus aqui e agora. Viver o para estar presente quando o ainda não do Reino Absoluto de Deus se estabelecer.

Claro, os tempos de espera são tempos antecipadores da felicidade do encontro. Como dizia o Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, referindo-se à raposa: “Se tu vens às quatro horas da tarde, desde as três começarei a ser feliz”. Se muitos dos nós vivenciássemos o que esta obra retrata, quão felizes não seriamos! Ao invés de estar por aí se lamuriando, choramingando, com coisas tão banais nós, a noiva de Cristo, deveríamos vivenciar esse tempo de espera, que nos separa da volta de Cristo nosso Senhor e rei, com alegria. Não é isso que Paulo, o apóstolo, alertou? “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito: alegrai-vos!” (Fp 4.4).

Enquanto escrevo estas linhas, estou pedindo a Deus para que eu não pareça ufanista, que eu sou o cara, alguém que vive uma vida de conto de fadas. Lhe peço que não me interprete desse modo. É claro que passo por momentos de tristeza e decepção na vida. Às vezes, vivo momentos de dor de alma, como todo mundo.

Gosto da forma divertida, mas séria, como Jonas Madureira coloca isso. Ele brinca que quando alguém pergunta para ele: “por que você está triste, Jonas? Crente não pode ficar triste!” Jonas diz que expulsa esse “demônio” em nome de Jesus. Porque não é verdade que, às vezes, nós não podemos ficar tristes. Aliás, foi o próprio Jesus quem disse que felizes são os que choram na tristeza profunda…

E qual é a diferença entre o ímpio e o crente nesse aspeto? Os ímpios são pessoas infelizes que tem alguns momentos passageiros de felicidade. Os crentes em Jesus são pessoas felizes e que têm alguns momentos passageiros de tristezas. E essa alegria é a confiança segura na soberania de Deus, de que Ele está no controle, sabe o que está fazendo e para onde está nos levando.

Me identifico com Bilbo Bolseiro, personagem principal de O hobbit, obra do genial J. R. R. Tolkien. Bilbo está numa jornada difícil e espinhosa, mas é gostoso vê-lo como ele encontra felicidade nas coisas mais simples da vida. Enquanto a sua jornada rumo à terra dos anões e de volta à casa não chega ao fim, ele vai se divertindo, cheirando flores, tendo prazer na vida. De novo: que coisa gostosa de se ver e viver!

Existe uma diferença significativa entre felicidade e prazer. Eu gosto da distinção que o Frei Betto faz. Ele diz que prazer é agradar os cinco sentidos: degustar uma boa bebida, contemplar uma pintura, ouvir uma boa música etc. Os prazeres são momentâneos; não duram tanto. E quem os confunde com felicidade fica sempre em busca de novas sensações no intuito de se sentir feliz.

No entanto, ninguém sente prazer nessas coisas quando acometido por uma doença, diante de uma catástrofe natural ou sofrendo perseguição. Pelo contrário, temos dificuldades de sentir prazer num gole suco de uva, quando estamos tragicamente acamados. Eis a diferença. Mesmo sob a dor e o sofrimento uma pessoa pode ser feliz, desde que saiba integrar as adversidades no sentido que imprimiu à sua existência. Se esse sentido for Deus a felicidade dessa pessoa não será movediça. Será firme e segura.

Mas eis que surge a pergunta inevitável:

Deus é um estraga-prazeres?

Claro que não; se você for pensar no prazer correto. O salmista ressalta que “Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios, não para no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores. Pelo contrário: seu prazer está na lei de Yahweh [Senhor], e medita sua lei, dia e noite” (Sl 1.1,2). Repare que o salmista diz que é feliz aquele que tem prazer na lei do Senhor. E por que isso é importante? Porque muitos de nós somos induzidos a pensar que Deus é um estraga-prazeres. Achamos que ele não quer que nós tenhamos prazer na mulher ou no homem da nossa mocidade; que Ele se intromete demais nos nossos assuntos, etc.

Pelo contrário: Deus quer que eu e você tenhamos prazer, sim, mas prazer baseado na fonte correta de prazer: a sua lei. E que lei é essa? Jesus, nos seus diálogos com os líderes religiosos, sintetizou a lei em duas máximas: “amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo” (Mt 22.37-40). Lembra? Então, podemos dizer, sem sombra de dúvida, que a lei do Senhor é o amor. É claro que o verdadeiro prazer não está nas coisas deste mundo, nelas mesmas, mas em um amor profundo a Deus e um amor intenso para como o próximo.

Santo Agostinho, um africano genial que viveu no século IV, dizia que somente o Infinito preenche nosso desejo pelo infinito. Em suas Confissões (livro X, n. 27) ele escreveu: “Meu coração inquieto não descansa enquanto não repousar em ti.” Por isso, o ser humano é um vir desideriorum (homem de desejos) que somente no Infinito, em Deus, encontra a sua paz e felicidade.

“Felicidade é um estado de espírito, um aflorar da consciência que nos faz amar a Deus e ao nosso semelhante”.

E como é essa felicidade? Ela precisa ser simples. Se a felicidade não for simples, se ela for adornada em excesso, se ela for inchada de coisas desnecessárias dela mesma, não é felicidade, mas um inchaço de situações. Simples não é o simplório, mas aquilo que não necessita do inútil.

Felicidade é um estado de espírito, um aflorar da consciência que nos faz amar a Deus e ao nosso semelhante. Mandela, em 27 anos de prisão, em sua luta contra a discriminação racial, era um homem feliz. Infeliz é quem acredita que a felicidade depende do último modelo Mercedes-Benz, do último lançamento da Samsung, de uma garrafa de champanhe ou de uma função de poder.

É possível ser-se feliz sozinho?

Consideremos, rapidamente, a felicidade no nível da sociedade. Mas antes pergunto: uma sociedade marcada pela violência e por profundas desigualdades como a nossa pode gerar felicidade coletiva? Tenho lá as minhas dúvidas. Porque felicidade é também partilha. Ninguém pode ser feliz sozinho; indiferente da dor alheia. E que graça teria se assim fosse? Até o próprio Deus é uma unidade comunitária; um ser trino.

A filosofia que deve reger a nossa comunidade não é “cada um por si e Deus para todos e todos por nenhum” Em nenhum momento a bíblia ensina isso. Penso que o exemplo cristão pode ser achado neste pensamento “um por todos e todos por um”. São frases aparentemente vazias, apenas gritos de guerra, mas elas têm o seu valor. E se for para aprender algum valor com elas, que seja o da coletividade comunitária.

Em minha vida eu fui tomando senso de responsabilidade desde a tenra idade. O fato de eu ser o filho mais velho de cinco irmãos contribuiu muito para isso. Na minha cultura, o filho mais velho tem quase a mesma autoridade que o pai tem; ele faz a banda tocar. Eu já aprendi na vivência que responsabilidades apressam o nosso amadurecimento. Por isso que se alguém me pergunta a minha idade logo devolvo a pergunta: “quantos anos você acha que eu tenho?” Já ouvi tanta coisa absurda… Quase sempre me atribuem mais idade do que possuo: 28, 29, até 30 me deram (foi um taxista). E para não deixar a pessoa constrangida digo: “preocupa não, é que já vivi muita coisa na vida.”

Tenho plena consciência de que a minha vida está no apogeu: tenho força e vigor; quando vou para o gol vejo que tenho reflexo e agilidade para agarrar a bola; as idas ao médico não são quase inexistentes; as ideias catam em alto e bom som na minha cabeça. Dou graças a Deus por tudo isso. É meu desejo lutar por um mundo de justiça e paz, levando as pessoas ao conhecimento da Verdade. É utopia isso? Talvez. Aliás, quem não tem uma para viver?

Roberto campos dizia: o sujeito que aos vinte anos não é um revolucionário, é um alienado. E o sujeito que aos quarenta anos continua revolucionário, é burro. Por que nos vinte anos a gente acha que vai mudar o mundo, mas à medida que o tempo vai passando nós vamos amadurecendo e a vida vai deixado de ser cor-de-rosa.

Tem razão o diplomata? Acho que Campos viu algo verdadeiro, mas reducionista. O ser humano é movido de ambições, não apenas aos vinte, mas toda a vida. Quem não tem ambição na vida, caiu na lama da indolência e se rendeu. Isso vale para o revolucionário e para o conservador. E aí, meus amigos, é aquilo que Shakespeare escreveu na peça Henrique IV, “or sink or swin”, “ou afunda ou nada”.

Convém dar ouvidos ao, já citado, velho frade dominicano: “Ninguém é feliz sozinho, pois ninguém se basta”. A felicidade tem dimensão social e política. A felicidade é como a sombra de uma grande mangueira: você pode convidar os outros que estão ao sol para se servirem da refrescante sombra desse seu pé de manga. Ninguém no mundo pode ficar indiferente, mesmo se considerando feliz, ao assistir cenas de massacre ou ao contemplar os corpos de imigrantes sírios, afogados na praia ao tentar fugir da violência do Estado Islâmico que mata e degola quem se recusa aceitar o seu islamismo radical. Quem consegue permanecer frio e indiferente diante de tal cenário?

Insisto: juntos podemos nos unir e procurar criar “condições de felicidade”. Como isso seria possível? Começando a amar e cuidar do nosso próximo (parente, amigo, vizinho, compatriota, enfim, outro ser humano) que tanto precisa que alguém que lhe socorra…  

Por fim vale este pequenino verso que nos faz refletir sobre nossa atitude diante da vida:

“Quem tá lento e enterra talento vai colher lamento”.

Que Deus nos ajude, irmãos, a termos uma vida intensa recheada de felicidade autêntica.

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Sobre Daniel Buanaher

Daniel Buanaher
DANIEL ANTÓNIO BUANAHERI é formado em teologia pela Universidade Metodista de São Paulo e graduando em pedagogia pela Universidade Anhanguera. É africano de nacionalidade moçambicana, natural da cidade de Pemba, Província de cabo Delgado. Atualmente reside no Brasil. Daniel Buanaher (como gosta de ser chamado) é o filho mais velho do casal António Buanaheri e Maria Buanaheri.

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