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Delfino Mênsut, no prelúdio da Boate Kiss

Delfino Mênsut, no prelúdio da Boate Kiss

(Aos familiares e amigos das vítimas
que sofreram a dor da tragédia que serve de esteira
a esta estória: meus mais sinceros pêsames)

 Por Daniel Buanaher

Na vida tudo acontece de repente. Mesmo o que chega tranquilo, com caras de quem não quer nada, é porque já teve o seu de repente. E foi de repente que numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, o moçambicano Delfino Mênsut deu por si numa colina transformado num autêntico oriental. Vestia uma longa túnica de pano fino e, quando levantou a cabeça, viu seus pés empoeirados, calçando alparcas de couro, escorregando sobre o corpo de uma linda moça egípcia. Vendo-se nesse insólito, começa a se mover. Mas não tão rápido quanto queria, pois sentia um sono pesado, maior que a noite. E apartando o braço da moça lhe pergunta:

– Desculpe, minha senhora. Poderia me dizer onde estamos e quem és tu?

– Quem sou eu? Mas que disparate…

– Olha, não me leve a mal: eu realmente não sei o que aconteceu para vir parar aqui. Eu.. eu fui a minha cama agora há pouco e de repente me dei nisto.

– Menos, Mênsut, menos!

– Mas eu, minha senhora, com a franqueza…

– Com a franqueza, com a franqueza. Me escute: pare com essa lenga-lenga, vamos embora. Está na hora de nos irmos. Se alguém descobrir que fizemos isto bem na hora da nossa escala, perdemos as nossas cabeças. Está a me ouvir bem, Mênsut?

– Eu perder a minha cabeça? – riu, incrédulo. – Nem sei o que lhe responder…

– Claro, você está mais lento de raciocínio que qualquer bicho-preguiça! Aliás, eu lhe pergunto: o que se passa, meu jovem? Está deitado na pedra e não lhe chega o leito? Ahm?

Aurorava. O sol dava as cinco. Salpicava sobre o corpo dos dois a areia fina do deserto de Cades-Barnéia. Mas ao mesmo tempo, Delfino sente transbordar sobre o seu corpo um calor escaldante. Seria o vulcão interno provocado pelo ajuntamento dos seus corpos? Ou o arrepio da alma fazendo morada no outro? Quiçá!

Me ajude com os panos – ordenou a moça.

Ainda tombado sobre as pedras, o moçambicano olha as cimeiras curvas que consegue reconhecer no esbelto corpo da moça e involuntariamente os olhos se lhe salivam. Aqueles panos lhe traziam lembranças africanas, lá onde as mulheres se enfeitam com capulanas[1] e se assenhoram do mundo. Onde há uma mulher sempre deve ser inventado um reino com toda sua pompa. Agora, deitado naquele solo, Delfino estranha ver tanto céu. Se pergunta: por que está ao relento e não debaixo das luzes do seu quarto?

A jovem lhe golpeia, ordenando que se levante e sigam o caminho já. Denfino embala uma repreensão:

A gente daqui não ensina os devidos respeitos?

Aaaiii!! Eu não entendo! Por que você insiste em falar assim, Mênsut?

Mas… mas como que você conhece o meu digníssimo nome?

– Deve ser do amor. O amor confunde nossa identidade, quando fundimos com o outro. Ou também vai querer me perguntar por que estamos aqui, longe do arraial?

– Me faria um grande favor.

Me faria um grande favor – falou isso num tom de deboche.

O moço pensou: como pode tudo aquilo não ser um sonho? E pediu mais matéria, mais fundamento. Mas a menina é ignorante das incertezas de Delfino: é imperioso partirem logo. Mesmo sem entender muito, Delfino vislumbrou o caminho com a egípcia. Aí então…

Espera, primeiro. Sinceras desculpas… Diante da sensibilidade do que vou lhe falar agora, mano, prefiro lhe contar em minha primeira pessoa. Sim: lhe conto, agora, a ficção da minha tristeza na minha voz. Esse Delfino Mênsut sou eu: Afonso Mênsut Panguana, o seu legítimo irmão. Pensei esconder o meu nome para esconder as vergonhas. Mas que vale insistir na lavagem do corpo enquanto a água está suja? Então lhe conto a verídica estória de como fui parar naquela boate que você viu na antena nacional. Não é para espalhar por aí. Lhe confio muito, mano. Porque não é um qualquer que publica assim as suas vergonhas. O que vou escrever é digno de esquecimento.

Recomeço com Diná, esta que me guia pelo deserto árido. Que ela conhece o caminho, isso garante o seu passo seguro. Escrevo o nome dessa mulher e ainda me sucede ouvir sua voz, suavezinha que nem brisa. Voz de mulher, meu mano, vale tanto como o afago dela. Pelo menos, a mim me aquece mais que o lume que o Avô Panguana acendia nas noites de luar. Lembras?

Como já lhe disse: Diná me apareceu de repente e inconveniente. Dela saltavam convites gordurosos para as minhas vontades. Contudo, meu mano: ela não demorou a me apressar para ir embora. Lhe segui mesmo sem conhecer destino. Era claro que ela me conhecia e eu não a reconhecia. E para não parecer demasiado burro, usei da seguinte esperteza: fingiria familiaridade com tudo aquilo. Chega de perguntas idiotas.

Quando voltar a chover – disse ela –, tombarão codornizes em vez de gotas.

Fiz que sim. Tentei imaginar a apocalíptica notícia. Desconsegui. Razão disso, continuei calado. A moça acrescentou: é o que o povo anda a comentar. E eu fazia ideia de que povo bem-bem se referia?

Depois de um tempinho, perguntei-lhe, assim, sem-querer-querendo: “quando nos fizemos tão íntimos?”. Foi quando me disse que ela era minha legítima noiva. Veja você, mano: eu noivo daquela belezura? A sério isso? Não deixei de lembrar da sua desconfiança diante do meu potencial conquistador. Lembras quando dizias:

– Você Afonso nunca chegarás a ter uma pita de primeira.

Aquela era mais do que isso, mano, era anteprimeira. Te juro. Quando ouvi aquilo, até lhe dediquei um beijo afogado. Ela desenhou satisfação na alma. E eu lhe ofereci deliciosas risadas. Beijo é como encontro de rio e mar. Formando um vasto oceano capaz de engolir o mundo. Conversa afiada? Está certo, mano, regresso ao cujo assunto da nossa caminhada.

No final das contas chegamos no acampamento. Lá, quase tive um ataque de trombose quando vi uns dois fulanos vindo em nossa direção com navalhas gigantes. Essas que nós moçambicanos chamamos de catanas. Pensei que fossem fazer mal a mim e a minha belezura. Tentei ganhar comportamentos de galo que defende sua fêmea. Mas enganei-me foi feio, mano. Era gente amiga. Me aliviei. Como mandam os modos lá da nossa terra. Primeiro, tentei cumprimentar os cujos jovens. Mas eles saltaram saudação e já adiantaram conversa:

Mas por que ele demora tanto tempo para descer do monte, Joel? – falou um de nome Mical.

Lá vem você de novo com essa história – quem diz isso é a minha digníssima.

Mas, e se ele tiver morrido? – insistiu Mical.

Micaaal! Já basta! – disse eu para não ficar só a comer fumo.

Mical olhe bem para mim – disse Diná. – Acha mesmo que nós temos cara de traidores? Não, não precisa dizer nada. A resposta está à vista dos seus olhos, caro amigo. Saiba que se por ventura houver algum motim não conte conosco.

– Eu sei que vocês têm grande apreço por ele, que o amam, essas coisas… Mas eu não quero apodrecer neste deserto a espera de alguém que não sei se está vivo ou não.

Enquanto o debate corria, de repente começamos a ouvir música e alaridos. A minha digníssima perguntou aos dois do que se tratava. Mical se encarregou da explicação:

Parece que o bezerro de Arão ficou pronto. Vamos, pessoal! Catemos e dançamos enquanto esperamos o chefe sumido – sorria.

Foi-se. E nós também corremos para lá. Aquela era uma festa e tanto, mano: cânticos, danças, bebidas. Eu mesmo, em toda minha humilde vida nunca tinha visto nada igual. Havia de tudo ali: de comida farta a mulheres rebolando. Havia ali demasiada carne para pouco tecido. Tudo numa libertinagem de encher os olhos. Me acredite, mano.

Diná e Mical que tanto defenderam o dito líder, acabaram me empurrando para a farra. Acreditando tratar-se de um espetáculo, me acabei de tanto dançar, comer e beber. A festa demorou muitas horas de tempo. Em cada uma dessas horas, se exibiam comidas, de todas as espécies e qualidades. Quase toda a gente se servia, às arrotadas abundâncias. Não estarei a exagerar se disser que nenhum pobre sentiu, nesses minutos, o morder do estômago.

As horas se cumpridavam, e as pessoas permaneciam, excessivos e excedendo-se. Parecia que, entre eles, se azedava a mandioca. E tu não vais acreditar, meu mano, o que aconteceu depois. O dito líder apareceu com duas pedras na mão. E depois, eh… Desculpa, mano… nem consigo contar direito essa parte… Só ei que houve um grande tumulto ali, a terra se abriu e muita gente foi engolida na terra, inclusive eu. E de repente me dei conta que eu estava não no deserto com um monte de desconhecidos, mas no balcão da boate Kiss, em Santa Maria, a gemer feito gato faminto. Acreditas, mano? Parece brincadeira, não é? E para você ver que é a mais alta verdade quando te digo que aquilo não era sonho: eu ainda estava com as roupas orientais agarradas ao meu corpo. E para piorar, as pessoas riam-se de mim por conta do meu traje. Me custa admitir, tanto que hesito em escrever e revelar minha identidade. Mas a verdade é que eu estava lá.

Eu estava lá quando o incêndio começou, vindo de uma tragédia para outra. Vi coisas horrorosas acontecerem, mano. Quando for sonhar, não sonhe com aquilo: olhos virados, convulsões sem fim, fogo lambendo tudo, gente virando carvão, pânico que eternamente ecoará na minha consciência…  Me salvei por um triz. Quem sabe para lhe dizer que a vida é mesmo um amendoim em casca dura. Depois da dor, a doçura do grão.

[1] Capulana: pano estampado que as mulheres africanas usam.

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Sobre Daniel Buanaher

Daniel Buanaher
DANIEL ANTÓNIO BUANAHERI é formado em teologia pela Universidade Metodista de São Paulo e graduando em pedagogia pela Universidade Anhanguera. É africano de nacionalidade moçambicana, natural da cidade de Pemba, Província de cabo Delgado. Atualmente reside no Brasil. Daniel Buanaher (como gosta de ser chamado) é o filho mais velho do casal António Buanaheri e Maria Buanaheri.

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