A carne é fraca, ou é apenas uma desculpa?

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Ao longo dos anos, a expressão “a carne é fraca” vem sendo usada por muita gente como uma forma de justificar os fracassos, como se fosse uma rota de fuga à responsabilidade da queda, seja de ordem moral, ética ou espiritual. Mas no contexto escriturístico da Palavra de Deus a interpretação é bem diferente.

Por Paulo Pontes

A Carne é Fraca – Encontrei nas redes sociais uma frase cuja autoria é supostamente atribuída a uma famosa cantora gospel, que faz parte de um não menos famoso ministério. A frase inserida ao lado da imagem da cantora, numa espécie de cartaz, com seu nome em baixo do texto é: “A carne é fraca? Fraca é a sua desculpa.” Embora não seja citada a referência bíblica no dito cartaz, é evidente que foi extraída de um dos evangelhos que expõe os momentos da angústia de Jesus, que antecederam sua prisão no Getsêmani (Mateus 26.36-46; Marcos 14.32-42; Lucas 22.39-46; e, João 18.1), onde, naquela noite, ocorreu o mais doloroso incidente de toda a história dos sofrimentos do nosso Salvador.

As palavras foram ditas por Jesus aos seus discípulos. Ele estaria brincando com os seus discípulos ao dizer aquelas palavras? Estaria mentindo? Seria algo sem nexo, e ele não sabia o que dizia?

Na versão Almeida Revista e Corrigida o texto de Mateus 26.41 não deixa dúvida: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas A CARNE É FRACA”. A KJV (King James Version), considerada a mais fiel tradução da Bíblia em relação aos textos originais, corrobora com a mesma expressão: “…a carne é fraca”.

Resumo Exegético do Texto de Mateus 26.41

De acordo com a Chave Bíblica de Strong, carne no original (grego) é σάρξ, σαρκός, , um substantivo feminino, cuja transliteração e fonética é “Sarx” ou “Sárks”, que significa “carne do corpo, a carne, o corpo, a natureza humana, materialidade; parentes”. Sárks = carne (“carnal”), apenas de origem humana ou capacitação. A carne (parte física, matéria) é necessária ao corpo para viver pela fé em Jesus (parte espiritual) (cf. Gálatas 2.20). Partindo desse ponto, a “carne”, por implicação, é a natureza humana, com as suas fragilidades e paixões, quer física ou moralmente. Então, a “carne” = “sarks” fala de algo que é geralmente negativo, referindo-se a tomada de decisões (ações) de acordo com o eu, à parte da fé, independente do agir de Deus no interior do ser humano. Assim, o que é “da carne é carnal”, por definição, e desagrada a Deus, mesmo que tenha aparência “respeitável!” Em suma, a carne em geral relaciona-se com o esforço humano, ou seja, decisões (ações) que se originam a partir de si mesmo, auto-capacitação, conforme está em Jeremias 17.5: “Assim diz o SENHOR: ‘Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” Em sentido moral, ético e espiritual, “carne = sarx” é a natureza mais baixa de uma pessoa, o lugar e o veículo de desejos pecaminosos. O carnal (“da carne”) vem da parte inalterada, intocada de cada um de nós, isto é, aquela que não é transformada por Deus, diretamente, mas depende da nossa submissão a Ele, em aceitar a Sua Palavra e obedecer aos seus preceitos. Por isso, a primeira necessidade de todo crente é “nascer de novo” (João 3.7b), para em seguida, estar “crucificado com Cristo” e testemunhar “vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim…” (Gálatas 2.20).

O Perfil dos Crentes Atuais

A maioria dos evangélicos não lê a Bíblia, não estuda a Bíblia, não gosta e não participa dos cultos ou reuniões de ensino bíblico. Acostumou-se com o “Evangelho-Show”. No meio evangélico existe outra parcela de formadores de opinião, que se acha detentora da mais pura verdade, e consegue facilmente influenciar com suas palavras, gestos e atitudes. E assim, infelizmente, os crentes vão sendo levados, enganados, porque não lêem a Bíblia, não estudam a Bíblia, e se contentam em ouvir palavras de pessoas que se destacam na mídia, e carregam tais mensagens (“frases de efeitos”) em seus corações e mentes como se elas fossem o “texto áureo” para suas vidas, mas sem o devido discernimento, e distante da correta interpretação bíblica.

O Senhor adverte os que fingem devoção, reivindicam a salvação conforme a aliança e as bênçãos decorrentes da sua Palavra, mas que ignoram seus mandamentos e se conformam com este mundo (Salmos 50.16,17,22). Realmente o Senhor se aborrece com esse tipo de gente!

No mundo todo, a igreja evangélica passa por uma transformação estranha aos propósitos divinos. No Brasil não é diferente. Está faltando ensino doutrinário. Cresceu o número de evangélicos. Mas, e o evangelho cresceu? A igreja está crescendo ao mesmo tempo em que está perdendo a identidade de evangélica. Enquanto alguns líderes brigam pelo poder, outros se reúnem e fazem aliança com uma emissora de TV (leia o artigo aqui). Cantores que receberam o talento para o louvor a Deus estão levando para casa troféus com “anjos nus, simulando a mesma postura dos querubins da arca do concerto” (leia o artigo aqui). O povo precisa de alimento espiritual devidamente dosado, mas em vez disso, parece que os crentes preferem comer as secas “palhas das novidades” do que o nutriente “trigo da verdade”. A mensagem de salvação foi substituída pela mensagem de prosperidade, isso enche os templos.

Massagear o ego das pessoas e falar o que elas querem ouvir parece uma boa estratégia de marketing. Mas falar a verdade, denunciar, pregar contra o pecado? Não! Jamais! Isso já não atrai pessoas, pelo contrário, as distancia da igreja. O que é pecado hoje? “Crente não pode pecar e nunca vai pecar”. “Ah! O mundo mudou…” “A igreja de hoje está contextualizada…” “O pastor não pega no pé…” e por aí vão os crentes (ou pseudos crentes) em caminhos de erros e desvios doutrinários. Mas, com certeza, após cumprirem certos “rituais de adoração”, e seguir os “conselhos” apontados como certos, voltarão decepcionados com a clara percepção de que não houve uma mudança significativa do ponto de vista bíblico neo-testamentário: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. “E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (Atos 2.42,43,46,47). Era a genuína mensagem do evangelho, pregada, ensinada e vivida de forma pura. Os crentes estão precisando voltar ao primeiro amor (Apocalipse 2.4,5), se é que um dia o experimentaram. Se não, o novo nascimento é o marco zero (João 3.7).

O Novo Nascimento

É a experiência fundamental para todo e qualquer cristão verdadeiro. Jesus ensinou: “Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (João 3.3). O ser humano em sua natureza carnal não pode compreender as coisas do Espírito de Deus (1 Coríntios 2.14).

O novo nascimento não é uma simples metáfora, é uma realidade concreta, que apresenta o aspecto pessoal e espiritual do Reino de Deus, bem diferente daquilo que muitos crentes (incluo aqui novos convertidos, congregados, obreiros, pregadores, cantores, e até pastores e líderes) que como Nicodemos naqueles dias também pensava ser.

O novo nascimento não pode ser comparado ao nascimento físico, como perguntou Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?” Este simbolismo tem sido tema de discussões sem que os expositores cheguem a um entendimento. Mas com base nos textos de Tiago 1.18 e 1 Pedro 1.23, fica claro que a geração de um novo ser espiritual é atribuída à Palavra de Deus, genuinamente aplicada à consciência e ao coração do crente. Portanto, no exercício do seu ministério, cantores, pregadores, educadores, pastores, líderes, obreiros em geral, devem ministrar sob a unção do Espírito Santo.

Infelizmente, existem no ministério cristão e eclesiástico, muitos que, sem aquele temor peculiar aos santos (Atos 2.43), ignoram, de algum modo, o processo do novo nascimento e fazem tudo como se o ministério fosse algo pessoal e material, e não espiritual e de Deus. O Rev. Hernandes Dias Lopes, renomado escritor, e pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória/ES, em seu livro “De Pastor a Pastor”, cita que no ministério cristão há pastores não convertidos, não vocacionados, preguiçosos, gananciosos, instáveis emocionalmente, e, confusos teologicamente, entre outros. “É doloroso que alguns daqueles que se levantam para pregar o evangelho aos outros não tenho sido ainda alcançados por esse mesmo evangelho. Há quem pregue o arrependimento sem jamais tê-lo experimentado. Há quem anuncie a graça sem jamais ter sido transformado por ela. Há quem conduza os perdidos à salvação e ainda está perdido”. Como ele próprio diz: “Este livro é o grito da minha alma e o soluço do meu coração. Foi escrito com dor e, às vezes, até com lágrimas”. Recomendo a todos que leiam. Exercer o ministério pastoral não é uma opção, como muitos podem pensar. É bem mais, muito mais que uma opção. O ofício sacerdotal é privilégio para os que são escolhidos pelo Senhor: “E ninguém tome para si essa honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” (Hb 5.4). É lamentável que, ignorando essas palavras, muitos enxergam e exercem o sacerdócio como uma profissão. Ministério Sacerdotal não é profissão É CHAMADA DIVINA!

Vida Transformada pela Renovação

Não precisamos inovações, mas indistintamente de renovação espiritual. Escrevi sobre isso em “Igrejas e Crentes em Perigo”: No meio em que vivemos presenciamos todos os dias “inovações” das mais diversas. Algumas até razoáveis, outras esquisitas, e até anti-bíblicas. Essas inovações não suportam as intempéries do tempo porque são movimentos baseados na presunção na porfia e outros sentimentos carnais (2 Timóteo 3.1-5). Precisamos dizer “Não à inovação” e “Sim à renovação”. Apesar de serem duas palavras semelhantes na pronúncia, têm com profundas divergências no contexto bíblico-doutrinário: “Inovar” é modificar o antigo; introduzir o novo (novos costumes, novas práticas, novas liturgias, novas maneiras de adorar…), enquanto que “Renovar” é mudar para melhor; melhorar em alguns aspectos. Numa entrevista que fiz ao Pr. Antônio Gilberto, ele disse: Renovação é para quem envelheceu, caiu na rotina, o que é um perigo. Todo crente normal precisa viver uma vida renovada, porque envelhece, espiritualmente” (clique aqui para ler entrevista).

Vejamos o que a Bíblia diz: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso CORPO em SACRIFÍCIO VIVO, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela RENOVAÇÃO do vosso entendimento, para que EXPERIMENTEIS qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.1,2).

Devemos observar com cuidado a exortação destes dois versículos, porque a vida cristã deve ser resultado da prática habitual da aplicação da verdade bíblica. O apóstolo Paulo, conhecendo a cultura romana, e observando o dia a dia dos crentes em Roma, faz este apelo. E como ele faz isto? Ele pede pela compaixão, um sentimento de pesar, diante do sofrimento de alguém. “Pela compaixão de Deus”.

“Sacrifício Vivo” do Corpo? Sim! Mas, por que?

Porque “a carne é fraca”.

Porque é pelo corpo carnal que vivemos a fé em Jesus. Em Mateus 26.41 no contexto literal, “sarks = carne” se refere à composição ou à substância do corpo. No aspecto moral, ético e espiritual, “sarks = carne” aponta para a natureza humana como condutor de desejos e paixões pecaminosos, que permanece no crente mesmo após a sua conversão (Romanos 8.6-8,13; Gálatas 5.17,21).

Porque não se pode oferecer um culto a Deus estando em pecado, pois este separa o homem de Deus (Isaias 59.2). Não existe qualquer compatibilidade entre a santidade de Deus e a pecaminosidade do homem. Os romanos, dominados pelo instinto carnal, agiam como irracionais, e, portanto, o culto que ofereciam também era irracional.

Porque quem não nascer de novo, da água e do Espírito não pode viver no Reino de Deus (João 3.5; Gálatas 5.21). É necessário sacrifício! O crente precisa resistir continuamente e mortificar a natureza pecaminosa, visto que quem anda na carne não pode agradar a Deus (Romanos 8.1,4-9).

Porque a necessidade subseqüente ao novo nascimento é estar “crucificado com Cristo”. Crucificar a carne significa mortificar as paixões, os desejos pecaminosos comuns da natureza humana.

Porque viver fora dos moldes do sistema de vida do mundo, em renovação constante, proporciona experimentar e comprovar “a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”, e promove a eficácia do testemunho: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo (Sarx = Carne”), vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2.20).

Minha Conclusão

Não se pode brincar com coisas sérias. A verdadeira obra de Deus só pode ser feita através do poder e da unção dEle (Zacarias 4.6). Precisamos urgentemente resgatar a nossa identidade como igreja verdadeira; respeitar com submissão os preceitos divinos; não remover os marcos antigos, ou devolvê-los aos pontos originais; reparar as brechas no muro; restaurar as veredas; ocupar as torres de vigília como legítimos sentinelas; e, etc. Nossa vida aqui ainda pode ser abundante, porque o nosso Deus é o mesmo, Ele não mudou! Ele cura! Ele batiza! Ele Salva! Ainda há tempo de ser crentes cheios de fervor espiritual, até a volta de Jesus, mas não vamos colocar vírgulas, dois pontos, ou interrogações onde Ele pôs ponto final!

Pr. Paulo Roberto Pontes
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Obs.: É permitido a copia para republicações, desde que cite o autor e as respectivas fontes principais e intermediárias, inclusive o Seara News informando o link www.searanews.com.br. Mais informações em nossa página: “Jurídico”.

15 COMENTÁRIOS

  1. Ó, foi Jesus quem disse que a carne é fraca! Então pensem. . . “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Marcos 14:38”

  2. Eu tenho certeza que é desculpa,pois a bíblia diss: que nós somos atraídos e engodados nas nossas próprias concupiscência. Então nos escolhemos ser carnal ou espiritual.

  3. Com certeza já não é uma estradinha. mas uma rodovia e bem asfaltada tem ate pedágio em alguns gabinetes pra defesa das desculpas da carne fraca. E em algumas organizações nem se fala em carne fraca.

  4. Ilustre Dr. Paulo Pontes, pela exposição apresentada dentro da boa exegese bíblica e interpretação límpida dos textos, só me responda uma coisa: Isto tudo é trecho de um livro seu, ou parte de uma super aula ministrada na igreja?
    Paz.

    • Caro professor Alex Belmonte, a matéria em questão não é parte de um livro meu e nem mesmo aula ministrada na igreja. Trata-se apenas um esclarecimento, porque as pessoas têm o direito de saber a verdade. Devemos ser fiéis à Palavra de Deus, expondo a mensagem de forma legítima, e não nos aproveitarmos da ignorância do povo como fazem alguns.

  5. Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Gálatas 5:13

  6. só venceremos a carne se passarmos mais tempo em oração. leitura da biblia e consagração.Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Romanos 8:7

  7. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis. Gálatas 5:17.

  8. enchei-vos do esprito santo.Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. 1 João 2:16.

  9. O Problema Dessa Desculpa É o distanciamento de DEUS, na vida de quem usa essa frase para se defender. pois passa mais tempo alimentando a carne do que o espirito. por isso ela é fraca.Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Gálatas 5:16.

  10. ESSA DESCULPA DE CAIR PORQUE A CARNE É FRACA É APENAS UMA ALUSÃO PARA OS QUE CAIRAM PELA VONTADE DE CAIR , POIS PECAM ENGOADOS PELA PRÓPRIA VONTADE DA SUA CARNE.

    CAEM POR SUSTENTAR A VONTADE DA CARNE .

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